
O historiador Fernando Antonio Novais morreu aos 93 anos nesta quinta-feira (30), em São Paulo. Novais foi um dos mais importantes historiadores brasileiros de sua geração, estudioso de renomada capacidade crítica e invenção temática. Era professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), onde lecionou no departamento de História Moderna e Contemporânea entre 1961 e 1986. Também foi professor no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de 1986 a 2003, e, ultimamente, na Faculdade de Ciências Econômicas das Faculdades de Campinas (Facamp).
Lecionou na Universidade do Texas. Deu cursos no Institut des Hautes Études de l’Amérique Latine, ligado à Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle); na Universidade de Louvain, na Bélgica; e, em Portugal, nas Universidades de Coimbra e de Lisboa.
Em sua bibliografia, destaca-se “Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1808)”, tese de doutorado, obtido em 1973, publicada anos depois em livro que se tornou um clássico da historiografia brasileira. Nesse trabalho, Novais emprega conceitos do instrumental marxista para construir a interpretação de que, em seu percurso, a colonização se articula às origens do capitalismo moderno, segundo parâmetros da chamada acumulação primitiva do capital. Seu intuito era compreender a crise do antigo sistema colonial como processo que termina por definir referências explicativas da constituição do Estado nacional brasileiro.
Foi o organizador da coleção “História da vida privada no Brasil”, reunião de ensaios de historiadores contemporâneos brasileiros, publicada em três edições: “Cotidiano e Vida Privada na América Portuguesa”, “Império: a Corte e a Modernidade Nacional” e “República: da Belle Époque à Era do Rádio”.
Em “Aproximações: Estudos de História e Historiografia”, encontram-se artigos, ensaios e prefácios que escreveu, recompilação feita por iniciativa de alunos doutorandos, que também contém uma bibliografia do autor.
Participou da formação original de um grupo de estudos, constituído na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em 1958 (ano de sua graduação) para fazer a leitura metódica e multidisciplinar de O Capital. O grupo, que ficou conhecido como Seminário Marx, era inicialmente integrado por jovens professores assistentes de filosofia, história, economia, sociologia e antropologia (como o próprio Novais, José Arhur Giannotti, Fernando Henrique Cardoso e Ruth Cardoso). Agregaram-se depois também estudantes, como Francisco Weffort e Bento Prado Júnior.
Roberto Schwarz, então estudante de ciências sociais, também presente no grupo, diz em seu livro “Sequências Brasileiras” (1999): “ Havia consciência no seminário de que sem crítica e invenção categorial — ou seja, sem a superação da condição mental passiva, de consumidores crédulos do progresso das nações adiantadas (e também das atrasadas) — não seria possível dar boa conta da tarefa histórico-sociológica posta em nossos países”.
Em outras palavras, acrescenta Schwarz, entendiam os participantes do seminário que “faria parte de uma inspiração marxista consequente um certo deslocamento da própria problemática clássica do marxismo, obrigando a pensar a experiência histórica com a própria cabeça, sem sujeição às construções consagradas que nos serviam de modelo, incluídas aí as de Marx”. Essa ordem de questões “iria encontrar o seu tratamento maduro na tese de Fernando Novais sobre ‘Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777- 1808)’. O livro. concebido nos anos do seminário e terminado muito tempo depois, é a obra-prima do grupo”.
Novais nasceu em Guararema, no Estado de São Paulo, em 1933. Filho de um professor de grupo escolar casado com uma “moça muito simples e de origem mestiça”. Como ele mesmo lembra, em entrevista para o livro “Conversas com Historiadores Brasileiros”, seu avô era negro, filho de escravos e sua avó, italiana do Vêneto.
Por causa da profissão do pai, a família morou em várias cidades do interior do Estado, até chegar na Capital. O interesse pelas humanidades, pela literatura, o levou à Faculdade de Filosofia, onde se fez historiador.
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