
A diferença entre líderes comuns e líderes extraordinários raramente está na ausência de erros, mas na velocidade com que recuperam clareza, energia e capacidade de decidir.
Há alguns meses encontrei um CEO para um café. O café estava excelente. A conversa, nem tanto. Antes mesmo de começarmos, chamou minha atenção a expressão de quem carregava um peso maior do que uma agenda cheia costuma explicar. As olheiras denunciavam uma noite mal dormida; o semblante misturava cansaço, frustração e uma irritação difícil de esconder. Perguntei o que havia acontecido.
Naquela semana ele recebera sua avaliação anual do presidente do conselho. Na sua visão, profundamente injusta. “Entregamos os resultados, batemos as metas e ouvi que minha performance foi apenas ‘ok’.” A palavra parecia doer mais do que qualquer crítica. “O chairman está longe da operação. Não vê o esforço do dia a dia. Ainda disse que passo tempo demais resolvendo o presente e pouco tempo construindo as avenidas de crescimento do futuro.”
Enquanto ele falava, percebi que a questão já não era mais o feedback, e sim o espaço mental que aquele episódio havia ocupado. Naquele momento, qualquer sugestão teria pouca utilidade. Sua mente estava congestionada. Antes de criar novas possibilidades, era preciso liberar espaço.
Dias depois participei de um evento em que o ex-tenista André Agassi conversava sobre sucesso, performance e traumas — três temas que, na minha visão, fazem parte de uma mesma disciplina: o “mental fitness”.
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Entre tantas histórias, uma frase ficou comigo: as maiores histórias de sucesso que ele conheceu pertenciam a pessoas quase obsessivas em concentrar energia naquilo que podiam controlar.
Colunista aposta que o que continuará raro será a capacidade de preservar clareza sob pressão, administrar a própria energia e voltar rapidamente ao seu melhor nível de performance depois de um revés
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A frase parece simples, mas a prática mostra exatamente o contrário. Executivos passam horas tentando reescrever o passado, controlar o comportamento dos outros ou encontrar justiça em situações que já aconteceram. Enquanto isso, dedicam muito menos energia à única variável que continua disponível: a própria resposta ao que aconteceu.
É por isso que considero a velocidade de recuperação (“recovery speed”) um dos pilares centrais do mental fitness. Na prática, mental fitness não é a capacidade de suportar mais pressão, mas de recuperar mais rapidamente a sua melhor versão depois dela. Qual a velocidade que se supera uma frustação, a raiva, ou uma injustiça? Ou até uma expectativa que você tinha sobre você mesmo em um tema que acabou não se concretizando?
Recentemente, um treinador de atletas de elite compartilhou comigo uma prática brilhante. Ele passou a filmar discretamente a expressão facial de seus atletas imediatamente após um erro ou um ponto perdido. Dias depois, revê essas imagens com cada um deles. A discussão nunca é sobre o erro. A pergunta é sempre a mesma: sua reação aumenta ou diminui suas chances de ganhar o próximo ponto?
Foi exatamente essa conversa que tive com aquele CEO, uma semana depois. Disse que lamentava não ter filmado sua expressão enquanto descrevia o encontro com o chairman. Aproveitando a técnica que aprendi com o treinador de elite, perguntei se sua reação era a mais adequada para resolver o tema. Assim, nossa conversa mudou de direção.
Saímos do terreno do que dependia do presidente do conselho e fomos para aquilo que dependia exclusivamente dele. O que havia de útil naquele feedback? O que precisava ser ajustado? E, principalmente, onde encontraria energia para acelerar sua recuperação? Ele voltou a visitar clientes — algo que sempre lhe deu prazer —, retomou os esportes e decidiu concentrar sua atenção naquilo que ainda podia influenciar.
Algum tempo depois nos encontramos novamente. A mudança era perceptível antes mesmo da primeira palavra. “Resolvi prestar muito mais atenção ao conteúdo da mensagem do que à forma como ela foi entregue”, disse.
Dias depois, ele recebeu um e-mail do próprio chairman elogiando a condução de um importante processo de M&A. O elogio foi consequência. A verdadeira mudança havia acontecido antes, quando ele decidiu reduzir o tempo que permanecia emocionalmente preso ao problema.
Quanto mais estudo o mental fitness, mais me convenço de que essa será uma das competências mais valiosas da liderança na próxima década. Estratégia e tecnologia via inteligência artificial estão rapidamente se tornando acessíveis. O que continuará raro será a capacidade de preservar clareza sob pressão, administrar a própria energia e voltar rapidamente ao seu melhor nível de performance depois de um revés.
No fim, talvez exista uma métrica que ainda recebe menos atenção do que deveria. Não é quantas vezes você acerta, nem quantas vezes erra. É a velocidade com que consegue voltar a acertar depois de um revés. Porque o tempo que você leva para recuperar energia, foco e qualidade das suas decisões revela muito sobre a sua capacidade de ganhar.
Sergio Chaia é coach de CEOs e de treinadores de atletas de alto rendimento. Atua em conselhos e faz mentoria. Foi CEO da Nextel e da Sodexo Pass.
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