
Autoridades de Estados Unidos e Irã apresentaram nesta sexta-feira versões conflitantes sobre um suposto acordo entre os dois países para encerrar a guerra que tem abalado o Oriente Médio há quase quatro meses e que provocou uma crise energética global devido ao fechamento do Estreito de Ormuz.
Ambos os lados afirmaram que o texto do memorando de entendimento, um primeiro passo que abriria caminho para a negociação de um acordo definitivo, ainda não foi finalizado. No entanto, a divulgação de termos mais favoráveis ao Irã por fontes ocidentais, paquistanesas e iranianas a diferentes veículos da imprensa mundial provocaram reações de Washington.
O presidente americano, Donald Trump, foi às redes sociais para criticar os relatos, dizendo que não eram verdadeiras as notícias sobre detalhes do acordo que favoreciam o Irã. Ele ainda acusou os negociadores iranianos de má-fé pela revelação dos termos das negociações.
“Os termos que o Irã vazou para a imprensa fake news não têm absolutamente nada a ver com os termos que foram acertados por escrito”, escreveu ele na plataforma Truth Social. “O que eles divulgaram, incluindo a declaração fraca e patética de que há um acordo, não corresponde em nada à realidade.”
Pouco depois da reação de Trump, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, pediu a veículos de comunicação que evitassem especular sobre o conteúdo do memorando. Em uma postagem no X, ele afirmou que um acordo entre Washington e Teerã “nunca esteve tão próximo”. A mensagem foi compartilhada na sequência por Trump.
Termos preliminares do acordo descritos à agência Reuters por várias fontes indicavam que os EUA começariam a liberar bilhões de dólares em ativos iranianos congelados e suspenderiam as sanções sobre as exportações de petróleo do país. Em troca, Teerã reabriria a passagem pelo Estreito de Ormuz.
O programa nuclear iraniano seria tratado em uma segunda fase de negociações, que duraria cerca de 60 dias, dedicados à elaboração de um acordo definitivo entre as partes, segundo as fontes.
As propostas também incluiriam discussões sobre possíveis reparações ao Irã sobre os danos causados pela guerra. Os EUA também abririam mão de exigências antigas para limitar o programa de mísseis iranianos.
Na imprensa iraniana, porém, os relatos também eram mais conflitantes. A agência Mehr, um veículo semioficial ligado a setores linha-dura que se opõem a um acordo, afirmou que o memorando continha um compromisso dos EUA de suspender as sanções.
Já a Irna, outra agência estatal do regime, havia informado anteriormente que o Irã permitiria novamente a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz, a rota marítima estratégica que Teerã praticamente fechou desde os primeiros dias da guerra. No entanto, a reportagem afirmava que o Teerã não abriria mão do controle sobre a hidrovia, passando a administrá-la em parceria com Omã, algo que dificilmente seria aceito pelo governo Trump.
Segundo a Irna, a minuta do acordo também inclui o Líbano como parte de qualquer encerramento permanente dos combates e não abrange o programa nuclear iraniano, que seria discutido em negociações posteriores.
Uma fonte do governo americano, por sua vez, afirmou à Reuters que o estoque de urânio enriquecido do Irã será removido do país e destruído, o que atenderia uma das principais exigências de Trump nas conversas. Teerã também teria concordado em desmantelar seu programa atômico.
“Nenhum recurso será liberado para eles até que cumpram sua parte. O Estreito de Ormuz permanecerá aberto. Não haverá financiamento iraniano a grupos terroristas”, afirmou a autoridade. “Foi isso que eles aceitaram. Trata-se de um acordo baseado no cumprimento de metas.”
Quase ao mesmo tempo em que Araqchi publicou a mensagem, o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, buscou conter as preocupações entre republicanos, que já criticaram outros avanços nas negociações por acreditarem que a Casa Branca estava sendo fraca em relação a Teerã.
“O acordo foi estruturado para garantir que as preocupações dos Estados Unidos e de seus aliados tenham prioridade e que, caso a República Islâmica do Irã cumpra suas obrigações, os benefícios econômicos sejam direcionados a eles e a toda a região”, escreveu Vance nas redes sociais.
“Nenhum dinheiro será liberado até que eles cumpram suas obrigações. O Estreito de Ormuz estará aberto. Não haverá financiamento iraniano a grupos terroristas. Foi isso que eles concordaram em fazer. É um acordo condicionado ao cumprimento dos compromissos assumidos.”
As informações divulgadas mais cedo de que o acordo poderia ser assinado em Genebra, no domingo, não foram confirmadas por Vance e pelo principal negociador do Irã, Mohammed Qalibaf, embora a fonte americana ouvida pela Reuters tenha afirmado que o acordo pode ser fechado nos próximos dias.
Em paralelo, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, afirmou nesta sexta-feira numa publicação na rede social X que foi alcançado um texto final consensual para um acordo de paz entre os Estados Unidos e o Irã.
Citando o que chamou de “campanha de desinformação promovida por aqueles que desejam sabotar o acordo de paz”, Sharif acrescentou que Islamabad está trabalhando com ambas as partes para definir os próximos passos.
“A paz nunca esteve tão próxima quanto está neste momento”, disse ele.
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