
Com a Argentina em mais uma final de Copa do Mundo em 2026, os brasileiros começam a se movimentar, em grande parte, para “secar” os hermanos na partida que valerá o tetracampeonato para a albiceleste, ou então o bicampeonato para a seleção da Espanha, neste domingo (19).
A Argentina encara a Espanha na final da Copa neste domingo às 16h (horário de Brasília), no New York/New Jersey Stadium – ou MetLife Stadium -, nos Estados Unidos. O jogo, junto com a cerimônia de encerramento da edição, que começa às 14h30 (no horário de Brasília), será transmitido pela TV Globo, Globoplay, GETV, SporTV e CazéTV.
Aos torcedores brasileiros, que amargaram a eliminação contra a Noruega nas oitavas de final, resta escolher um lado para torcer — e essa não parece ser uma escolha difícil. Em Curitiba, por exemplo, o Festival Ginga organizou uma ação que dá bebidas de graça para quem chegar ao evento vestindo a camisa da Espanha. Há até uma petição online irônica que pede a eliminação da Argentina da Copa com milhões de assinaturas coletadas.
Mas como tudo isso começou? Como brasileiros e argentinos passaram de vizinhos a arquirrivais?
Fora de campo: tudo começou na política
“Essa rivalidade é de antes de existir Brasil e Argentina”, afirma José Alves, professor de História da América pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). “No contexto ainda do Brasil-Colônia e da América Espanhola, a primeira disputa entre os dois países é a região do Rio da Prata. Pelo Tratado de Tordesilhas, que dividiu a América, os portugueses não poderiam ter ocupado várias porções de terras que ocuparam.”
O professor explica que esse conflito pelo domínio territorial da região da Cisplatina – que no final não ficou com nenhuma das duas nações e resultou na formação do Uruguai – gerou desconfianças que foram herdadas pelas autoridades que viriam a comandar os países após suas respectivas independências.
“O próprio processo de independência dos países é um motivo de rivalidade em si”, afirma. O Brasil seguiu como um império após a independência, já nossos vizinhos se tornaram repúblicas.
Na época, a diferença entre as duas formas de governo fez com que os intelectuais argentinos começassem a criticar a independência brasileira. “Eles eram contra o modelo imperial do Brasil, que para eles, não seguia os parâmetros republicanos e liberais que eram prezados na época. Por outro lado, nós, brasileiros, quando contamos a nossa história, criamos o mito de que nosso processo de independência foi pacífico, o que teria gerado unidade e estabilidade, diferente dos nossos vizinhos, que seriam países instáveis e confusos”, continua Alves.
Para o professor, essa maneira de olhar para a formação dos países, amplamente ensinada no período imperial, foi o primeiro passo para gerar a “rixa” que existe até hoje com os hermanos.
“O que começou com intelectuais por meio das críticas e autoridades oficiais nas disputas por territórios, chega na população como uma espécie de preconceito”, explica. “O Brasil seria mais ‘ordeiro’ e ‘pacífico’ e eles têm muitas guerras e violência. Essa visão, que é ensinada até hoje, era passada na escola, já que não interessava ao império ensinar uma visão republicana”, segue.
Outro ponto que pode explicar uma rivalidade mais acirrada com a Argentina do que com outros países da América do Sul é o tamanho da economia e do próprio território nacional. “Os pequenos não incomodam. A Argentina era o país mais rico da América do Sul até o início dos anos 1930. Eles tinham grandes obras, altos investimentos, universalizaram a educação básica ainda no século XIX, coisa que o Brasil só veio fazer nos anos 1990”, lembra.
Para Alves, as rivalidades vêm sempre de uma relação mista de admiração e repúdio. “Nós começamos e depois essa ‘briga’ foi estimulada via esporte, mas eles próprios depois perceberam que perderam terreno. A economia brasileira se tornou muito maior, nós que comandamos o Mercosul, então eles entraram nessa lógica também”, alega.
No futebol, nosso primeiro grande rival não foi a Argentina
O primeiro confronto entre as duas seleções foi um amistoso em 1908, com vitória dos hermanos por 3×2 na cidade do Rio de Janeiro. Contudo, apesar dos conflitos na política e da derrota no campo, no início das competições a grande seleção a ser batida na América do Sul não era a Argentina. “Nosso primeiro rival no futebol é seguramente o Uruguai”.
Os uruguaios começaram muito bem no futebol. Campeões das duas primeiras olimpíadas em 1924 e 1928, campeões da primeira Copa do Mundo em 1930 e novamente em 1950. “Os uruguaios são responsáveis por um grande trauma brasileiro em 1950, quando foram campeões do mundo em cima do Brasil na final de uma copa sediada no próprio Brasil, em um jogo no Maracanã”, lembra o professor.
Alves explica que, dentro do campo, o que colocou mais “lenha” na rivalidade entre Brasil e Argentina não foram confrontos de Copa do Mundo, mas sim da Copa América. “Os argentinos foram campeões da América muitas vezes, o início da rivalidade [no campo] está aí”.
“Até próximo de 1950, eles eram quase que ‘café com leite’. A Argentina vai assumir esse posto [de rival] exatamente quando o Uruguai começa a perder peso e os hermanos começam a chegar mais fortes”, diz José Alves.
De fato, foi só a partir do final da década de 1930 que os Argentinos engataram em uma sequência de títulos na América. Entre 1937 e 1947, eles disputaram 6 das 7 finais do campeonato e venceram 5, sendo 3 delas contra o Brasil.
*Estagiário sob supervisão de Diogo Max
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