
Previsto para os meses de primavera e verão (2026/2027), o fenômeno natural El Niño deve causar impactos de Norte a Sul no Brasil, com intensidade que ainda não pode ser prevista com nível seguro de confiabilidade, segundo especialistas. Contudo, já é previsto que deve causar seca no Norte e Nordeste do país, o que afetaria a saúde da população e intensificaria incêndios florestais, enquanto estados do Sul podem vir a enfrentar grandes enchentes causadas por chuvas intensas em volume e duração. Em meio aos eventos climáticos, fortes ondas de calor podem intensificar ambos os efeitos por todo o país.
Os alertas estão na mais recente nota técnica elaborada pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O fenômeno El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico na faixa equatorial. Um “super El Niño” é reconhecido quando essa temperatura excede um limiar de 2ºC acima da média, enquanto um evento ainda maior acontece quando o aquecimento chega a 3ºC acima da média. É o que vem sendo chamado de “El Niño Godzilla”, que poderá se tornar “o mais forte da história moderna”.
Monitoramentos oceânicos já confirmam que o El Niño está se desenvolvendo abaixo da superfície do oceano. Segundo o Cemaden, porém, as simulações e observações meteorológicas internacionais, como da Europa, Estados Unidos e Austrália, ainda não são capazes de prever a longo prazo para cravar qual será a intensidade do El Niño da vez.
Um super El Niño, segundo a nota técnica do Cemaden, levaria a alterações climáticas extremas, como inundações massivas, secas severas, ondas de calor e trajetórias de tempestades significativamente alteradas, que podem afetar o Brasil. “No Sul do Brasil, historicamente, o fenômeno aumenta o risco de chuvas acima da média, enquanto o Norte e o Nordeste costumam enfrentar redução das chuvas”, diz a nota.
Diante desse cenário de eventos climáticos mais intensos e do aumento do risco de seca em partes do país, especialmente em áreas sensíveis como a Amazônia e o Pantanal, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a União e os estados dessas regiões detalhem as medidas de planejamento e preparação em curso para enfrentar a possível escalada de incêndios florestais. A decisão foi tomada no âmbito da ADPF 743, que monitora ações estruturais de prevenção e combate ao fogo nesses biomas.
Confira abaixo os efeitos alarmantes de um ‘El Niño Godzilla’ sobre todo o Brasil:
Grandes secas na Amazônia aconteceram em anos de El Niño e em anos em que o fenômeno esteve ausente, o que indica que a seca pode ser relacionada também a outros fatores. Porém, o Cemaden aponta que durante o último El Niño forte (2023/2024), o Brasil enfrentou a maior seca dos últimos 70 anos tanto em extensão, quanto em intensidade.
A entidade de pesquisa estima que os impactos mais relevantes poderiam ocorrer a partir da primavera, em setembro, até o verão, que vai até março do ano que vem, com impactos semelhantes aos vistos em 2024, caso as previsões se confirmem.
O El Niño, seguindo as análises do Cemaden, geralmente aumenta episódios de chuvas mais intensos e mais frequentes, especialmente na primavera, no Sul do Brasil e em áreas do Mato Grosso do Sul. “Na prática, esse padrão [histórico, de El Niños passados] sugere maior propensão a enchentes e inundações graduais, além de instabilização de encostas em setores da Serra Gaúcha e do Planalto Meridional.”
No Rio Grande do Sul, estado que deve ser o mais afetado, a nota técnica pede maior atenção à região de Porto Alegre e seu entorno, devido ao número elevado de habitantes e presença de infraestrutura crítica.
Em Santa Catarina, deve haver grande aumento no volume das chuvas, embora com maior variabilidade de área e de duração do que em comparação com o Rio Grande do Sul. O estado tem áreas costeiras urbanizadas e encostas suscetíveis. Isso faz com que, por lá, haja também riscos de grandes deslizamentos de terras.
No Paraná as chuvas também devem aumentar em volume e intensidade, mas de maneira mais moderada. Os principais impactos potenciais são de enxurradas e alagamentos, embora também haja possibilidade de deslizamentos de terra.
Já no Mato Grosso do Sul, a previsão é de sinal secundário de preocupação, mas ainda há possibilidade de episódios de chuvas mais intensas e acumuladas em poucos dias, o que pode favorecer enxurradas, alagamentos e inundações.
Os destaques, porém, não ausentam riscos nas demais regiões do país, alerta o Cemaden. “Chuvas localizadas podem ocorrer em qualquer região, dependendo da atuação de sistemas meteorológicos específicos e das condições locais de exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade”, diz a nota.
Impactos nos recursos hídricos
A alteração no ciclo de chuvas por período prolongado pode afetar negativamente o índice de disponibilidade hídrica. Esse processo favorece a redução dos níveis dos rios no Norte principalmente, mesmo após o fim do El Niño, diz o Cemaden.
“Mesmo após o enfraquecimento do fenômeno El Niño e a retomada parcial das chuvas, os rios podem permanecer com níveis abaixo da média histórica por vários meses, prolongando impactos sobre abastecimento humano, navegação, geração hidrelétrica e ecossistemas aquáticos”, diz a nota técnica.
Esses efeitos podem se estender a setores estratégicos da infraestrutura hídrica e energética do Norte, especialmente as usinas hidrelétricas dos rios Xingu, Madeira e Tocantins-Araguaia. “Além dos impactos sobre a geração de energia, a redução da renovação hídrica pode favorecer a degradação da qualidade da água, com aumento da temperatura dos rios e maior concentração de sedimentos e matéria orgânica.”
Ondas de calor afetam o Brasil ao longo do ano todo e todos os anos, com ou sem El Niño. Estima-se que, em geral, aconteçam até dez ondas de calor por ano: foram oito em 2023, dez em 2024, e sete em 2025. Em anos de aquecimento anormal do Oceano Pacífico, contudo, a intensidade dessas ondas de calor é maior, aponta o Cemaden.
O aumento da temperatura pode trazer consequências combinadas com a seca, como intensificar incêndios florestais na Amazônia e no Pantanal, com impacto negativo também sobre a saúde da população.
Os estados de Mato Grosso do Sul, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo são os que mais registram ondas de calor, enquanto os estados do Norte e Nordeste têm registrado as mais intensas nos últimos anos.
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