
Aliados políticos de longa data, Eduardo Paes e Lucinha aparecem em episódios citados na investigação envolvendo a agenda do então prefeito, reuniões com motoristas de vans e encontros na Zona Oeste. Paes é testemunha; Lucinha é ré.
A relação política entre Eduardo Paes e a deputada estadual Lucinha ganhou um novo capítulo com o avanço da ação penal que apura acusações contra a parlamentar e sua ex-assessora Ariane Afonso Lima por ligação com o grupo criminoso conhecido como Bonde do Zinho.
Lucinha e Paes são aliados políticos de longa data. Ao longo dos anos, os dois mantiveram interlocução política e participaram de atividades públicas, principalmente na Zona Oeste do Rio, principal reduto eleitoral da deputada.
Agora, acontecimentos ocorridos durante parte dessa relação aparecem nas investigações: a agenda de Eduardo Paes na Zona Oeste, reuniões com motoristas de vans e encontros articulados por Lucinha.
Com o processo na fase de produção de provas, Eduardo Paes foi indicado pelo Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) como testemunha de acusação.
A situação jurídica dos dois, entretanto, é diferente: Lucinha é ré. Eduardo Paes é testemunha e não é acusado de integrar a milícia nesse processo.
Uma aliança política de longa data
A relação entre Eduardo Paes e Lucinha começou muito antes dos acontecimentos investigados.
Lucinha construiu sua trajetória política principalmente na Zona Oeste, enquanto Paes também manteve forte presença política e administrativa na região durante suas passagens pela Prefeitura do Rio.
Ao longo dos anos, os dois apareceram juntos publicamente e mantiveram interlocução política.
Em 2018, por exemplo, Eduardo Paes participou de uma carreata ao lado de Lucinha em Santa Cruz, na Zona Oeste. Coberturas mais recentes do processo também descrevem os dois como aliados políticos de longa data.
Essa proximidade, isoladamente, não representa irregularidade. Ela ganha relevância para a reportagem porque acontecimentos ocorridos durante essa relação posteriormente passaram a integrar investigações envolvendo Lucinha.
Agenda de Eduardo Paes aparece na acusação
Um dos episódios destacados pelo Ministério Público aconteceu em julho de 2021.
Segundo o MPRJ, Lucinha e Ariane teriam fornecido a integrantes do grupo criminoso informações relacionadas à agenda de visitas de Eduardo Paes à Zona Oeste.
De acordo com a acusação, o conhecimento antecipado dos compromissos teria permitido que integrantes da organização deixassem as ruas de determinadas localidades antes da chegada do então prefeito.
O próprio MPRJ incluiu esse episódio na descrição pública da denúncia contra Lucinha e Ariane.
Reunião com motoristas de vans entrou na investigação
Outro episódio colocou novamente Paes e Lucinha no mesmo contexto investigado.
Em setembro de 2021, Lucinha articulou uma reunião entre Eduardo Paes e motoristas de vans.
Segundo investigação da Polícia Federal posteriormente revelada pela imprensa, integrantes da milícia teriam ajudado a fornecer estrutura para a realização daquele encontro, incluindo lona e cadeiras, além da mobilização de participantes.
A investigação também analisou a atuação política de Lucinha relacionada às regras do transporte alternativo na Zona Oeste.
Eduardo Paes não foi apontado como investigado nesse episódio.
Investigação cita encontro no gabinete de Paes
A apuração da Polícia Federal revelou ainda outro encontro relacionado ao transporte alternativo.
Segundo a investigação, Lucinha teria organizado uma reunião no gabinete de Eduardo Paes, na Prefeitura do Rio, com motoristas indicados por um homem apontado pelos investigadores como integrante da milícia de Zinho.
O episódio passou a fazer parte da reconstrução feita pelos investigadores sobre a atuação política atribuída a Lucinha.
A existência do encontro, entretanto, não significa que Paes tivesse conhecimento de eventual participação de integrantes da organização criminosa nas articulações investigadas.
Vans são um dos pontos importantes do caso
O transporte alternativo ocupa espaço relevante na acusação.
O Ministério Público afirma que Lucinha e Ariane teriam atuado para preservar a chamada “Brecha da P5”, relacionada às regras do transporte público alternativo.
Segundo a denúncia, a manutenção dessa possibilidade poderia favorecer a exploração econômica das vans em regiões dominadas pelo grupo criminoso.
Nesse contexto, reuniões e articulações envolvendo representantes do transporte alternativo, Lucinha e integrantes da administração municipal passaram a ser analisadas pelas autoridades.
O que o Ministério Público acusa
O MPRJ sustenta que Lucinha e Ariane integrariam o núcleo político do Bonde do Zinho, organização comandada por Luís Antônio da Silva Braga, conhecido como Zinho.
Segundo a acusação, as duas teriam utilizado influência política para defender interesses da organização junto ao poder público.
O Ministério Público afirma ainda que, entre junho de 2021 e março de 2022, ocorreram encontros frequentes com integrantes do grupo para tratar de assuntos de interesse da organização.
Em dezembro de 2025, a Justiça recebeu a denúncia e Lucinha e Ariane passaram à condição de rés.
O recebimento da denúncia não representa condenação. As acusações ainda precisam ser julgadas, com direito ao contraditório e à ampla defesa.
Eduardo Paes é testemunha de acusação
A relação política histórica entre Paes e Lucinha ganha agora importância também na fase judicial.
O Ministério Público incluiu Eduardo Paes entre suas testemunhas, considerando que seu depoimento pode contribuir para esclarecer acontecimentos narrados na denúncia.
Entre os pontos relacionados diretamente ao ex-prefeito estão sua agenda de compromissos na Zona Oeste e episódios envolvendo a interlocução de Lucinha com a Prefeitura.
Linha do tempo: Paes, Lucinha e a investigação
2018 — Eduardo Paes e Lucinha aparecem juntos em atividades políticas na Zona Oeste, incluindo uma carreata em Santa Cruz.
Julho de 2021 — Segundo o Ministério Público, Lucinha e Ariane teriam repassado informações relacionadas à agenda de visitas de Eduardo Paes à Zona Oeste.
Setembro de 2021 — Lucinha articula reunião entre Eduardo Paes e motoristas de vans. Posteriormente, investigação da PF aponta que integrantes da milícia teriam ajudado na estrutura do encontro.
2021 — A investigação também cita reunião no gabinete de Paes envolvendo representantes do transporte alternativo.
Dezembro de 2023 — A investigação da Polícia Federal envolvendo Lucinha ganha repercussão nacional e detalhes relacionados aos episódios de 2021 tornam-se públicos.
Junho de 2024 — O Ministério Público apresenta denúncia e indica Eduardo Paes como testemunha.
Dezembro de 2025 — A Justiça recebe a denúncia e Lucinha e Ariane tornam-se rés.
Agosto de 2026 — O processo avança para a fase de produção de provas e depoimentos, com Eduardo Paes entre as testemunhas indicadas pela acusação.
De aliados políticos ao mesmo processo judicial
O histórico entre Eduardo Paes e Lucinha ajuda a compreender por que o depoimento do ex-prefeito ganhou relevância.
Foram anos de interlocução política, especialmente em questões relacionadas à Zona Oeste. Posteriormente, acontecimentos ocorridos durante parte dessa relação passaram a integrar investigações da Polícia Federal e a denúncia apresentada pelo Ministério Público.
Agora, os dois aparecem no mesmo processo, porém em posições jurídicas completamente diferentes.
Lucinha é ré. Eduardo Paes é testemunha.
O processo deverá determinar se as acusações apresentadas pelo Ministério Público contra Lucinha e Ariane serão comprovadas. O depoimento das testemunhas poderá ajudar a Justiça a reconstruir o contexto dos acontecimentos ocorridos em 2021.
O BelfordRoxo24h continuará acompanhando o caso e atualizará esta reportagem diante de novos depoimentos, documentos ou decisões judiciais.
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