
Uma organização chinesa suspeita de exportar ilegalmente precursores químicos usados na produção do opioide sintético fentanil também teria participado de um esquema de fraude em larga escala com criptomoedas a partir do Japão, segundo investigação independente conduzida pelo “Nikkei Asia”.
Utilizando domínios de internet japoneses, o grupo teria aplicado golpes contra inúmeros compradores de criptoativos. A apuração também identificou transações frequentes com pessoas e entidades submetidas a sanções dos Estados Unidos, o que levanta a possibilidade de uma rede criminosa mais ampla.
A organização investigada tem como núcleo a fabricante chinesa de produtos químicos Hubei Amarvel Biotech, alvo de ações das autoridades americanas. Dois executivos da empresa foram condenados nos EUA no ano passado.
No fim de maio, um alto funcionário da Drug Enforcement Administration (DEA) afirmou que o Japão é visto como um ponto de trânsito para o contrabando de fentanil. Como o país realiza inspeções menos rigorosas do que muitos outros em cargas comerciais destinadas aos EUA, tornou-se uma rota atrativa para o envio de precursores produzidos na China e na Índia.
Uma empresa ligada à Amarvel, chamada Firsky, operava em Nagoia e servia como base operacional do grupo. Segundo documentos jurídicos, uma pessoa descrita como “o chefe no Japão” coordenava dali a logística e a gestão financeira das operações. A Firsky foi liquidada em julho de 2024.
As suspeitas agora vão além do tráfico de drogas. Cresce a preocupação de que a estrutura mantida no Japão também tenha sido utilizada em outras atividades ilícitas, incluindo fraudes financeiras.
Com base em provas apresentadas em tribunais, o “Nikkei Asia” identificou contas de criptomoedas utilizadas pelo grupo ligado à Amarvel e desenvolveu um programa de análise para rastrear a movimentação dos recursos.
A investigação concentrou-se nas transações realizadas após setembro de 2022, quando a Firsky transferiu suas operações para Nagoia. Movimentações consideradas suspeitas começaram a aparecer já em outubro daquele ano.
O histórico de transações registrado em blockchain revelou conexões com organizações criminosas.
Segundo a análise, a Amarvel mantinha trocas frequentes de criptomoedas com grupos chineses envolvidos em fraudes financeiras. Um dos esquemas incluía a distribuição de um token fraudulento chamado “zksync.jp”, criado para imitar um serviço legítimo de pagamentos rápidos e induzir usuários em diversos países a transferirem recursos. Os prejuízos, inclusive no Japão, são estimados em centenas de milhões de ienes — cada 100 milhões de ienes equivalem a cerca de US$ 620 mil.
O token utilizava o domínio “.jp”, cujo registro normalmente exige endereço no Japão. O ativo foi lançado em 2023, período que coincide com as operações da Amarvel por meio da Firsky no país.
O responsável pelo registro do domínio parece ser um cidadão chinês residente em Hong Kong. O rastreamento dos fluxos financeiros e das conexões pessoais indica uma relação próxima entre ele e a Amarvel.
A empresa americana de análise blockchain Chainalysis considera esse tipo de estrutura uma prática comum de lavagem de dinheiro. Domínios japoneses desfrutam de elevada credibilidade internacional, o que os torna especialmente atraentes para uso indevido.
A investigação também encontrou diversas ligações com organizações e indivíduos chineses sancionados pelo Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Ofac), órgão do Departamento do Tesouro dos EUA.
Entre eles está o grupo químico chinês Wuhan Yuancheng Group. Seu principal executivo, um cidadão chinês, é apontado pelas autoridades americanas como um grande traficante de drogas. Os EUA oferecem recompensa de US$ 5 milhões por informações que levem à sua captura.
De acordo com a apuração, a Amarvel realizou mais de 120 transações com entidades sancionadas pelo Ofac ligadas ao Wuhan Yuancheng, utilizando múltiplas contas para dificultar a identificação da origem dos recursos. Muitos dos envolvidos compartilham a mesma cidade de origem na China, o que sugere a existência de uma rede de relacionamentos bem estabelecida.
Tien-Peng Ho, da empresa americana de análise TRM Labs, consultada para verificar as conclusões da investigação, afirmou que a proximidade geográfica do Japão com a China continental, aliada a um sistema financeiro aberto e a uma economia fortemente integrada ao comércio internacional, torna o país uma rota atraente para disfarçar recursos ilícitos como receitas legítimas.
Em maio, a DEA assinou um memorando de entendimento com a Guarda Costeira do Japão para reforçar o combate ao contrabando de drogas, incluindo o fentanil. O Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) também passou a adotar medidas para enfrentar o problema.
Apesar do aumento da vigilância sobre as rotas de contrabando, as autoridades japonesas e de outros países ainda estão atrasadas no monitoramento dos fluxos financeiros ligados ao tráfico de drogas que circulam por meio de criptomoedas.
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