
Quando “as pernas começam a tremer e o investidor passa a duvidar da carteira que armou”, tem mais dinheiro para aplicar e questiona se está caro, barato, se vale tirar recursos do Brasil e seguir na toada da diversificação, o conselho é: “se vai investir, investe”, disse Paulo Leme, executivo responsável pela alocação global da XP Investimentos.
Embora seja difícil tirar da frente os ruídos da guerra no Irã, que não se sabe se são de curto prazo ou mais permanentes, “o mercado, ao longo de vários anos, com o seu retorno composto geométrico mostra que é melhor investir”, afirmou Leme, ao participar da XP Global Conference, em Miami.
A guerra no Irã ainda é uma incógnita para os agentes econômicos e financeiros do mundo inteiro, se será apenas um capítulo temporário na história geopolítica que vai acabar em alguns dias ou se terá efeitos mais permanentes nas economias, preços de combustíveis e outros insumos, e, consequentemente, sobre os ativos. A medida mais importante desse jogo é o tempo, segundo Leme.
Se passar mais duas semanas, os efeitos serão mais graves nos preços do barril de petróleo tipo Brent, no gás natural, afetando inflação, PIB e todas as classes de ativos terão que passar por uma revisão. Taxas de juros, as curvas futuras, as métricas de volatilidade, as estimativas de lucros das companhias, todas as decisões de investimentos teriam que ser reprogramadas. O pior resultado seria uma estagflação.
Apesar das implicações, isso não significa sair vendendo tudo e ficar totalmente em ‘cash’, diz ele.
“Quem fez isso em abril do ano passado [quando Donald Trump lançou o tarifaço], e eu fiz na física, eu me preocupei. Pensei assim, eu estudei economia internacional, isso aqui tem que ser péssimo para o crescimento, isso aqui vai ser positivo para o dólar, vai quebrar com o crescimento e a bolsa tem que ir para baixo. Mas o cara mudou de ideia duas semanas depois”, contou Leme. “Teve um rali monstro. Então, não só derrubou a bolsa brutalmente, como depois disso teve uma recuperação daquele ponto. Não se afobe em ficar fazendo ‘micromanagement’ da carteira. Se ela está construída, ela vai te levar até o final.”
A situação hoje é tentar adivinhar o que os iranianos estão pensando e como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lê o andar do conflito. “Fazer esse ‘market timing’, sobre o que o Fed vai fazer na quarta-feira, o que isso vai implicar na curva de juros, acertar e fazer a calibragem, se vai estar acelerando a economia ou se pode ter uma ter recessão…” Leme advertiu que fazer ajustes de carteira de curtíssimo prazo é extremamente perigoso e que até os gestores mais habilidosos erram porque o cenário de hoje pode ser completamente diferente de cinco a sete dias atrás.
“A minha impressão é que o jogo, o ‘grand game’ para os Estados Unidos seria ir para o objetivo inicial que era eliminar completamente a possibilidade de ter armas nucleares no Irã. Ou seja, vai ter que colocar gente descendo em território iraniano para pegar os tambores, os barris e os containers que têm urânio enriquecido, senão não é game over”, ponderou. “Apesar dos custos humanos, da tragédia humana horrorosa, eles estão escondidos ali na caverna levando bomba… eles estão num jogo de ganhar tempo e o Trump tem o limite de tempo, ou seja, está contra o relógio, tem uma eleição [legislativa], ‘midterm elections’, a popularidade dele começa a cair e ele está sendo marcado a mercado.”
Para Leme, a economia global pode aguentar e evitar um ‘drawdown’ [tombo] de um desvio padrão [em relação à média], mas a gente está contra o relógio. Eu não sei se são cinco dias, sete dias, mas se você entrar em abril, eu acho que é outro game, e não é legal. Aí o negócio vai complicar muito.”
Mesmo que a guerra acabe logo, o executivo lembrou que reativar poços de petróleo que foram paralisados por causa do fechamento do escoamento via Estreito de Ormuz não acontece de uma hora para outra, as refinarias ficam sobrecarregadas.
Embora não se arrisque a colocar probabilidades nos desdobramentos à frente, Leme citou que se a guerra se prolongar também coloca os bancos centrais numa situação muito difícil. Se já estavam num ciclo de corte de juros, como é que respondem a isso?, questionou.
O pior desfecho recomendaria mais posições em ativos livres de risco como os títulos do Tesouro americano. Com a perspectiva de um aumento de inflação, haveria alta de juros, das taxas longas, o prazo médio da carteira teria que ser encurtado. Já a parcela em renda variável iria para ativos de maior qualidade. “Possivelmente, você vai ter uma atividade econômica ou desacelerando, estagnando ou mesmo indo para uma leve recessão de um trimestre ou dois.” Regionalmente, seria o momento de privilegiar países exportadores de petróleo.
Este não é, contudo, o cenário-base com que Leme trabalha, trata-se apenas de um exercício que tem sido feito diariamente. O oposto disso seria aumentar a exposição a ativos de risco.
* A repórter viajou a convite da XP
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