
Pratos argentinos, chineses, indianos, italianos, japoneses… viajar pelo mundo todo é possível sem sair da Passage des Panoramas, a mais antiga galeria coberta de Paris, onde tratorias e bistrôs se alternam com lojas de filatelia, dedicadas ao colecionismo e à compra e venda de selos postais.
A sucessão de letreiros resulta em uma poluição visual na qual ofertas anacrônicas de “70 selos avulsos” dividem espaço com “cafés especiais” e “matcha lattes de morango e chocolate”.
Embora os franceses enviem hoje quase metade das cartas que mandavam há uma década, as poucas lojas de filatelia da galeria — que agora se contam nos dedos de uma única mão — sobrevivem atraindo aqueles que, diante da modernidade, preferem continuar viajando por meio de cartas e cartões-postais.
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Quem são os compradores de selos
Gilles Drapanski, um representante comercial idoso, é um desses saudosistas que, com um catálogo de selos debaixo do braço, ainda compara preços de loja em loja — embora hoje precise fazer isso desviando de turistas do mundo inteiro e de mesas de restaurantes.
“Consigo comprar os selos que não podia comprar quando era jovem, porque gosto das gravuras. Tudo o que envolve design, história, geografia… permite viajar sem precisar pegar um avião”, afirmou ele em entrevista à agência EFE.
Catherine, que administra a loja Filatelia Marigny na Passage des Panoramas desde 1990, explicou que, para ela, os selos são “uma forma de abordar a história muito mais lúdica do que os livros”.
“Aprende-se muito com um pedacinho de papel. Há muito o que dizer; é possível fazer todo um discurso sobre um único selo, seja ele qual for”, acrescentou, referindo-se aos diversos retratos, paisagens e obras de arte que estampam os selos franceses.

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Como foi a transformação do local

Apesar da paixão que move comerciantes como Catherine, os restaurantes se multiplicaram na última década e “o ambiente já não é o mesmo” no local. Antes, “a maioria das pessoas que tinha uma loja morava no andar de cima, então parecia uma pequena vila” no centro de Paris.
“Sou uma resistente nata, e os negociantes de selos também são. Tentamos resistir, mas logo nos aposentaremos e, depois de nós, certamente isto aqui também vai virar um restaurante”, lamentou.
A Passage des Panoramas passou por constantes reinvenções desde sua construção em 1799 — ano em que Napoleão Bonaparte ascendeu ao poder —, época em que sua principal atração eram as antigas galerias panorâmicas (hoje inexistentes) que lhe deram o nome.
Para preservar o colecionismo, a negociante ressaltou a importância da renovação geracional, que é praticamente inexistente tanto entre vendedores quanto entre colecionadores: “Tenho um cliente de 54 anos que é chamado de ‘o garoto’ em seu clube de filatelia”, afirmou.
Catherine defendeu colecionar selos como “uma cultura acessível, lúdica e ao alcance de todos”, embora tenha destacado que muitos de seus clientes “colecionam para deixar de herança para alguém”.

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O que é filatelia e como já movimentou milhões
A filatelia ainda reúne apreciadores em todo o mundo por meio de cerca de uma centena de federações. Somente na França, contabilizam-se quase 20 mil associados distribuídos em cerca de 450 organizações, além de algumas das vendas de selos mais valiosas do planeta.
É o caso do primeiro selo postal a entrar em circulação na França, em 1849: o Cérès vermillon (Ceres Vermelhão), que retrata a deusa romana da agricultura em um tom vermelho-claro — alterado pouco tempo depois para o carmesim.
Essa versão inicial, cujos exemplares originais foram se perdendo com o passar do tempo, tornou-se uma das peças mais cobiçadas pelos colecionadores. O preço frequentemente ultrapassa os 20 mil euros (cerca de R$ 120 mil) em leilões, tendo chegado a ser vendida, em uma quadra (bloco de quatro selos) em perfeito estado de conservação, por quase 1 milhão de euros.
Ainda assim, esses valores estão distantes dos alcançados pelos selos mais caros do mundo: os primeiros mil exemplares impressos nas Ilhas Maurício, em 1847. Restam apenas 27 originais preservados, e um deles foi vendido pelo valor recorde de 8 milhões de euros em 2022.
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