
A abertura de uma nova frente da guerra no Oriente Médio, com a escalada dos confrontos entre a Arábia Saudita e os houthis no Iêmen, ameaça não apenas o comércio de petróleo pelo Mar Vermelho, mas também os planos de Riad de reduzir sua dependência do petróleo por meio da Visão 2030.
Lançado em 2016, o projeto saudita tem como estratégia a transformação econômica, social e tecnológica do reino, por meio de investimentos e fomento à construção de megaprojetos no país, a fim de tornar o Oriente Médio um destino seguro e atraente para o turismo – uma visão compartilhada com outros países da região, como Catar e Emirados Árabes Unidos.
Essa mudança de imagem, no entanto, esbarra em um vizinho com uma profunda crise política: o Iêmen. O país fronteiriço está dividido politicamente por conta de um conflito de mais de uma década entre os rebeldes houthis (xiitas apoiados pelo Irã) e o governo reconhecido internacionalmente (apoiado por uma coalizão liderada pela Arábia Saudita).
Na quinta-feira (6), pelo menos 35 soldados foram dados como mortos em ataques com mísseis e drones lançados pelos rebeldes xiitas contra forças governamentais nas províncias orientais de Hadramawt e Marib. Essa crise, que ganhou novos contornos com a guerra entre Irã e EUA, prejudica diretamente os planos visionários sauditas.
Os reveses no projeto da Arábia Saudita
O projeto de desenvolvimento surgiu num cenário no qual os preços globais do petróleo despencavam, em 2014, situação que colocou a Arábia Saudita em um dos maiores desafios econômicos de sua história moderna.
Ao ascender ao trono no ano seguinte, o Rei Salman bin Abdulaziz Al Saud e seu filho Mohammed bin Salman Al Saud (atual príncipe herdeiro) responderam ao cenário desfavorável desenvolvendo o ambicioso plano de reforma econômica e social do reino, que foi apresentado oficialmente em 2016.
A Visão 2030 enfrentou uma série de obstáculos ao longo dos anos. Segundo o think tank americano Atlantic Council, a detenção em 2017 de cerca de 400 empresários sauditas no Hotel Ritz-Carlton, em Riad, e o assassinato do jornalista Jamal Khashoggi em 2018 desviaram a atenção das reformas econômicas. Depois, a pandemia de Covid-19 agravou o cenário ao derrubar os preços do petróleo, afetar a economia global e reduzir o turismo, um dos pilares da estratégia saudita.
Agora, a guerra em curso no Oriente Médio representa mais um desafio para o projeto, sobretudo por afetar um dos principais pilares do projeto: o turismo. O Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTTC) estimou no primeiro semestre deste ano que a guerra em andamento no Oriente Médio está custando à indústria de viagens e turismo aproximadamente 515 milhões de euros por dia.
Um dos impactos mais recentes na proposta saudita ocorreu meses atrás, quando a Federação Internacional de Automobilismo (FIA) teve que cancelar o Grande Prêmio da Arábia Saudita de Fórmula 1 de 2026, que ocorreria em abril, devido à insegurança na região.
Além dos riscos inerentes ao conflito, casos concretos prejudicaram a reputação da região, como um ataque de míssil iraniano que atingiu um hotel em Dubai no final de fevereiro. Em Abu Dhabi, um projétil caiu próximo a um cruzeiro atracado no Porto Zayed, gerando pânico entre passageiros.
Por outro lado, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) aponta pontos positivos de política interna que impulsionaram os planos da monarquia.
Em termos econômicos e sociais, a transformação tem saído do papel. O desemprego, por exemplo, caiu de 12,3% para cerca de 7%, os serviços governamentais digitais estão entre os mais avançados do mundo e o turismo, a logística, a mineração e outros setores não petrolíferos cresceram substancialmente.
Instabilidade no Iêmen é tática de pressão dos houthis
Analistas consultados pela Gazeta do Povo explicam como essa nova frente aberta atrapalha a Visão 2030 e pode ser uma estratégia dos houthis por sua própria existência.
“A Arábia Saudita busca se consolidar como um hub seguro para investimentos e negócios internacionais. O país tem procurado se inspirar, em certa medida, nos modelos do Catar e dos Emirados Árabes Unidos, fortalecendo sua relevância no cenário global”, afirma o economista Igor Lucena, doutor em Relações Internacionais.
Segundo ele, embora reformas estruturais importantes tenham avançado nos últimos anos, enquanto a situação no Iêmen e no Mar Vermelho permanecer instável, os sauditas terão dificuldades para garantir a segurança de sua infraestrutura estratégica, especialmente a ligada ao petróleo.
O Atlantic Council avalia que a ameaça persistente a rotas estratégicas de energia pode ser uma tática de pressão dos houthis para obter concessões de Riad ou o primeiro passo para uma nova guerra no Iêmen, com a finalidade de enfraquecer o governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita e conquistar uma nova parcela do território.
Os planos estratégicos do reino também contrastam diretamente com a existência do grupo extremista, visto que a segurança regional é um dos pilares para a atração de investidores e turistas.
Ricardo Caichiolo, professor de Relações Internacionais e diretor do Ibmec Brasília, destaca que a retomada da instabilidade e os ataques a ativos energéticos afugentam o investimento estrangeiro essencial para a diversificação econômica, além de elevar custos logísticos e forçar o governo saudita a redirecionar bilhões de dólares de megaprojetos estruturais para gastos emergenciais de defesa e segurança, uma situação que deixa os planos de desenvolvimento do reino cada vez mais distantes.
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