
Investigação da PF identificou viagens ao Líbano e monitoramento de alvos judaicos e israelenses. Em setembro de 2026, o STJ restabeleceu uma condenação por preparação de terrorismo.
Uma rede ligada ao Hezbollah recrutou brasileiros com antecedentes criminais para preparar possíveis atentados contra alvos judaicos e israelenses no Brasil, segundo análise publicada em 14 de outubro de 2026 pelo Washington Institute. O levantamento examina informações da Operação Trapiche, deflagrada pela Polícia Federal em novembro de 2023.
O caso teve um desdobramento judicial em setembro de 2026, quando a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça restabeleceu, por unanimidade, a condenação de um brasileiro por atos preparatórios de terrorismo. A decisão reconheceu que receber dinheiro não afasta a responsabilidade de quem participa conscientemente de um plano com finalidade discriminatória.
A análise é assinada pelo procurador da República Lucas Gualtieri, que participou das investigações. Segundo o texto, os recrutadores buscavam pessoas com dificuldades financeiras e ressentimento contra o sistema de Justiça. A identificação prévia com a ideologia do Hezbollah não era uma exigência para a abordagem.
Na avaliação do procurador, contratar executores locais poderia dificultar a identificação da participação da organização em eventuais ataques, fazendo ações planejadas pelo grupo parecerem crimes isolados.
Viagens ao Líbano e monitoramento no Brasil
As investigações identificaram viagens custeadas ao Líbano, onde brasileiros recebiam orientação e treinamento. Após o retorno, alguns passaram a levantar informações sobre instituições judaicas, representações israelenses e integrantes da comunidade judaica.
O processo analisado pelo STJ envolve um brasileiro identificado como Lucas, que realizou duas viagens ao país. Segundo a denúncia descrita pelo tribunal, ele pesquisou e registrou imagens de sinagogas, de um cemitério israelita e da Embaixada de Israel, em Brasília.
A acusação também apontou a compra de equipamentos de vigilância e a tentativa de envolver outras pessoas nas atividades preparatórias.
Comércio ilegal teria financiado o recrutamento
A investigação financeira avançou na segunda fase da Operação Trapiche, realizada em agosto de 2024. Na ocasião, a PF informou que recursos da venda de cigarros eletrônicos contrabandeados em tabacarias teriam financiado passagens de brasileiros recrutados para viagens ao exterior.
Os investigadores também apontaram o uso de empresas e contas bancárias abertas em nome de terceiros para movimentações ilícitas. A operação incluiu buscas, bloqueio de contas, apreensão judicial de valores e suspensão das atividades de empresas investigadas.
Interesse financeiro não afastou a condenação
Antes da decisão do STJ, o Tribunal Regional Federal da 6ª Região havia mantido a condenação de Lucas por integrar organização terrorista, mas afastado a referente aos atos preparatórios. O entendimento era de que ele teria agido principalmente por dinheiro.
Ao examinar o recurso, o STJ considerou que interesse econômico e motivação discriminatória podem coexistir. A corte destacou o conhecimento dos objetivos antissemitas do plano e a participação voluntária do acusado.
Com o restabelecimento da condenação, o processo voltou ao TRF6 para análise dos pontos pendentes e novo cálculo da pena.
Na cobertura da sentença de primeira instância, em 2024, a defesa negou a prática dos crimes e pediu a anulação do processo e a absolvição.
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