
A Casa Branca será palco no domingo (14) de um evento inédito do UFC, que será realizado no gramado sul da residência oficial do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no mesmo dia em que ele comemora seus 80 anos e os americanos o Dia da Bandeira. O brasileiro Alex “Poatan” Pereira, atual campeão dos meio-pesados do UFC, participará de uma das lutas do evento, enfrentando o francês Ciryl Gane pelo título interino dos pesos-pesados.
Batizado de UFC Freedom 250, o evento foi idealizado pelo próprio presidente Trump. Em julho do ano passado, durante passagem pelo estado do Iowa, o presidente anunciou publicamente a intenção de realizar um evento de luta de artes marciais mistas nos jardins da Casa Branca como parte das comemorações do 250º aniversário da independência americana, que acontece neste ano, no dia 4 de julho.
A aposta de Trump é transformar o evento na Casa Branca em uma grande celebração do orgulho nacional americano. Mais de mil militares estarão entre os cerca de 4 mil convidados especiais alocados no gramado sul – grande parte dos ingressos para este setor foram reservados para membros das Forças Armadas e suas famílias. A programação do evento inclui ainda bandas militares, sobrevoo dos paraquedistas Golden Knights, do Exército, apresentação da banda de música country Zac Brown Band, cavalos Clydesdale, símbolo tradicional americano, e dez minutos de fogos de artifício no encerramento. A organização do evento disponibilizou também uma área próxima à Casa Branca onde é esperado que 120 mil pessoas acompanhem as lutas.
O chefe do UFC, Dana White, aliado de longa data de Trump e que atuou na campanha presidencial de 2024, quando o republicano derrotou a democrata Kamala Harris, reforçou nesta semana o discurso patriótico do evento na sede do poder Executivo americano. Segundo ele, as lutas de domingo foram montadas para que, “da primeira luta da noite até a luta principal”, o evento “conte a história da América”. Os próprios lutadores americanos que participaram do evento abraçaram o clima patriótico: nesta quarta-feira (10), em Washington, o peso-leve Michael Chandler afirmou que caminhar da Casa Branca até o octógono “representando a América” é “um sonho realizado”.
A estrutura para o evento
Para viabilizar o evento, a organização do UFC ergueu no gramado sul da Casa Branca uma estrutura metálica de 28 metros de altura e cerca de 545 toneladas, apelidada de “The Claw” (A Garra, em tradução livre), um arco de iluminação que ficará suspenso sobre o octógono onde acontecem as lutas.
A peça foi fabricada na Bélgica, montada e testada na Filadélfia e depois transportada por caminhões até Washington, segundo disse Dana White. As obras para viabilizar o evento começaram em 20 de maio. Cerca de 900 pessoas participaram da montagem da estrutura, conforme disse o diretor de administração da Casa Branca, Joshua Fisher. O custo total do evento supera os US$ 60 milhões (R$ 311 milhões, na cotação mais recente), que foram bancados integralmente pelo UFC.
O card principal
A luta principal da noite é a disputa pelo cinturão do peso-leve entre o campeão Ilia Topuria, de origem georgiana e radicado na Espanha, e o americano Justin Gaethje. Na outra luta, o brasileiro Alex “Poatan” Pereira enfrenta o francês Ciryl Gane pelo título interino do peso-pesado. Pereira, natural de Contagem (MG), é um dos lutadores brasileiros mais populares do circuito global e chega ao card da Casa Branca após conquistar o cinturão dos meio-pesados no ano passado.
O card principal conta ainda com outros brasileiros: Mauricio Ruffy, que enfrenta o americano Michael Chandler no peso-leve, e Diego Lopes, que disputa na categoria peso-pena contra o também americano Steve Garcia. Participarão do evento ainda os americanos Sean O’Malley, que enfrentará o canadense Aiemann Zahabi no peso-galo, e Josh Hokit contra Derrick Lewis nos pesados e Bo Nickal contra Kyle Daukaus no peso-médio.
Polêmica jurídica
Apesar do tom de celebração, o evento se tornou alvo de contestações na justiça dos EUA. No último sábado (6), o escritório de advocacia Public Integrity Project entrou com uma ação judicial em nome de dois residentes do estado da Virgínia, o veterano da Guerra do Vietnã Paul Romano e a ativista Susan Douglas, pedindo a suspensão do evento. A queixa alega que o Departamento do Interior e o Serviço Nacional de Parques (National Park Service) violaram regulamentações federais ao permitir um evento esportivo privado em propriedade pública, que a estrutura “The Claw” foi erguida sem aprovação do Congresso e que nenhuma avaliação ambiental foi realizada antes das obras.
Os autores da ação argumentam ainda que o evento não se enquadra na regra federal que isenta de certas autorizações as celebrações dos 250 anos dos Estados Unidos, porque, segundo eles, a luta não celebra a fundação do país, e sim o UFC e o aniversário de Trump.
Em resposta, o Departamento de Justiça defendeu a legalidade do evento e criticou os autores da ação.
“Ninguém está segurando os autores numa chave de jiu-jítsu, forçando-os a assistir ao UFC Freedom 250 contra a sua vontade”, escreveu a equipe jurídica do governo Trump em petição ao juiz federal Amit P. Mehta, que ficou responsável em julgar o caso.
O governo argumentou ainda que o processo foi apresentado tarde demais, após meses de obras e planejamento, e que suspender o evento agora causaria prejuízos a atletas, patrocinadores e ao público. Mehta, que foi indicado para a sua posição pelo ex-presidente democrata Barack Obama, ainda não marcou uma audiência sobre o caso. O evento segue com data marcada para o domingo.
Outro ponto da ação envolve a relação de Trump com o TKO Group Holdings, dono do UFC. Segundo os autores, o presidente declarou ter investido entre US$ 15 mil e US$ 50 mil (R$ 77 mil e R$ 259 mil) em ações da empresa em março, o que poderia configurar conflito de interesses. A ação também afirma que consultorias políticas em Washington orientaram clientes corporativos a comprar pacotes de patrocínio do evento, com valores a partir de US$ 1 milhão (R$ 5 mihões), para obter lugares privilegiados e acesso ao presidente. A Casa Branca negou as acusações. “Não há conflitos de interesse”, afirmou o porta-voz David Ingle, em nota oficial.
Entre os democratas, o deputado Jared Huffman, da Califórnia, criticou a realização do evento. “Você está pagando mais por comida, mais por gasolina, mais por saúde, tudo enquanto Trump gasta com uma jaula de UFC no gramado sul”, escreveu ele nas redes sociais. A senadora democrata Elizabeth Warren (crítica antiga de Trump) e o governador da Califórnia, Gavin Newsom, que é apontado como um dos presidenciáveis do Partido Democrata para 2028, também ironizaram o evento nas redes sociais.
Já entre os republicanos, o secretário de Segurança Interna dos EUA, Markwayne Mullin, ex-senador por Oklahoma e ex-lutador de MMA, elogiou a iniciativa, dizendo que os lutadores sairão “literalmente do Salão Oval” em direção ao octógono.
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