
O presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella, encerrou formalmente as negociações mantidas pelo governo de Gustavo Petro com diversos grupos armados ilegais no âmbito da chamada “paz total”. A decisão foi oficializada por meio de uma série de resoluções expedidas na noite de sexta-feira (28) e divulgadas neste sábado (29).
Os atos encerram mesas de diálogo e espaços de conversa sociojurídica que haviam sido criados durante o governo Petro, além de revogar as nomeações dos representantes do governo e os reconhecimentos concedidos aos delegados das organizações armadas que participavam das negociações.
Ao justificar as medidas, o novo governo afirmou que cabe constitucionalmente ao presidente decidir “como, quando e com quem” o Estado colombiano pode conduzir aproximações e negociações de paz.
Entre os grupos atingidos estão o Estado-Maior dos Blocos Magdalena Medio, Comandante Gentil Duarte, Comandante Jorge Suárez Briceño e Frente Raúl Reyes (EMBF), a Coordenação Nacional do Exército Bolivariano (CNEB) e as Autodefesas Conquistadoras da Serra Nevada (ACSN).
Governo aponta falta de vontade de paz
Em uma das decisões, o governo afirma que, apesar da criação da mesa de diálogo, uma série de acontecimentos “enfraqueceram o diálogo” com a Coordenação Nacional do Exército Bolivariano e impediram que fosse demonstrada uma “real vontade de paz e reintegração à vida civil” dos integrantes da organização.
A decisão representa uma mudança direta em relação à estratégia adotada por Petro, que tinha como uma de suas principais bandeiras a tentativa de negociar simultaneamente com diferentes organizações armadas e criminosas.
O Estado-Maior dos Blocos Magdalena Medio, por exemplo, havia integrado o Estado-Maior Central (EMC), principal dissidência das antigas FARC, mas rompeu com a organização em 2024 justamente por causa da decisão de não continuar as negociações com o governo Petro.
Já a Coordenação Nacional do Exército Bolivariano surgiu de uma cisão da Segunda Marquetalia, outro grupo dissidente das FARC. A organização reúne a Coordinadora Guerrillera del Pacífico e os Comandos de Frontera.
Negociadores também perdem autorização
Além de encerrar os diálogos, o governo De la Espriella revogou as credenciais dos negociadores oficiais que representavam o Estado colombiano nas mesas.
Também foram anulados os reconhecimentos concedidos aos representantes dos grupos armados para participar das negociações.
A medida atingiu, entre outros, Armando Novoa, principal negociador do governo nas conversas com a CNEB. Ele classificou a decisão como “desnecessária”, argumentando que os representantes do governo já haviam apresentado, em 6 de agosto, um dia antes da posse de De la Espriella, sua “renúncia irrevogável” às funções.
Para Novoa, portanto, bastaria que a nova administração aceitasse as renúncias.
Ruptura com a “paz total” de Petro
A “paz total” foi uma das principais políticas do governo Gustavo Petro. A proposta buscava negociar não apenas com organizações guerrilheiras, mas também com dissidências das FARC e grupos criminosos, como o Clã do Golfo, considerado a maior organização criminosa da Colômbia.
Na prática, os processos enfrentaram sucessivos obstáculos.
As negociações com o Exército de Libertação Nacional (ELN) e com o EMC, por exemplo, foram suspensas pelo próprio governo Petro diante da falta de avanços e de disposição para o diálogo.
Antes de assumir a Presidência, De la Espriella já havia sinalizado que abandonaria a estratégia de seu antecessor. O novo presidente afirmou que não ofereceria “concessões inaceitáveis” aos grupos armados e, durante sua posse, declarou que a possibilidade de diálogo com essas organizações estava “completamente esgotada”.
As resoluções divulgadas neste sábado transformam essa posição política em uma decisão formal de governo.
Governo começa a priorizar operações militares
A mudança na política de segurança já vinha sendo acompanhada por ações contra grupos armados.
Em 17 de agosto, poucos dias depois de assumir a Presidência, De la Espriella anunciou a prisão de integrantes de dissidências das FARC em operações realizadas em diferentes regiões do país.
Segundo o presidente, cinco integrantes da Frente Oliver Sinisterra foram capturados em flagrante, com apreensão de explosivos, armas, granadas e munições. Outros quatro integrantes do grupo armado organizado residual (GAO-r) Carlos Patiño também foram presos em Cauca.
Na ocasião, De la Espriella afirmou que o crime seria enfrentado “com todo o rigor da lei” e declarou que o Estado “jamais se curvará novamente perante o crime ou o narcoterrorismo”.
A orientação reforça a promessa de uma política de segurança baseada na ofensiva contra as organizações armadas, em vez da manutenção de negociações com elas.
Colômbia amplia cooperação militar com Equador e EUA
A mudança de estratégia ocorre paralelamente ao fortalecimento da cooperação internacional contra o narcotráfico na região.
Em 27 de agosto, autoridades de Defesa da Colômbia, do Equador e dos Estados Unidos se reuniram em San Lorenzo, no Equador, para discutir uma estratégia conjunta contra organizações criminosas que atuam na fronteira entre os dois países.
Participaram do encontro o ministro da Defesa colombiano, Jorge Eduardo Mora, o ministro da Defesa equatoriano, Gian Carlo Loffredo, e o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos, general Francis Donovan. As autoridades discutiram o compartilhamento de inteligência e a coordenação de operações contra grupos ligados ao narcotráfico.
O comandante americano afirmou que a região fronteiriça é um corredor estratégico utilizado por organizações criminosas e que os três países trabalham em uma estratégia unificada para impedir que os grupos encontrem áreas de refúgio.
A aproximação entre Bogotá, Quito e Washington amplia a pressão sobre organizações que atuam nas áreas de fronteira e coincide com a nova orientação de De la Espriella de abandonar as negociações com grupos armados e priorizar ações de segurança e combate ao narcotráfico.
- “Livro da Verdade”: documento da gestão Espriella denuncia corrupção e falhas da era Petro
- Equador, EUA e Colômbia preparam operações militares conjuntas contra grupos do narcotráfico
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