
Em um momento em que o mundo se perguntava se os Estados Unidos retomarão os bombardeios em grande escala contra o Irã, o foco de atenção no Oriente Médio foi deslocado para outra disputa: o confronto entre a Arábia Saudita e os houthis do Iêmen, apoiados pelos iranianos.
Há três meses, um cessar-fogo entre os dois lados, declarado em 2022, foi rompido, o que resultou numa escalada que atingiu seu ponto mais dramático nos últimos dias.
Ataques houthis mataram 13 pessoas e feriram centenas no Aeroporto Internacional Rei Khalid, localizado na capital, Riade, e o maior da Arábia Saudita, no sábado (10); quatro pessoas já haviam morrido em ataques anteriores e outra foi morta no domingo (11). O terminal foi fechado.
Analistas projetam que essa escalada, além de gerar o risco de retomada de uma guerra que pode se espalhar pelo Oriente Médio, também testa uma aliança militar assinada pelos sauditas com a Turquia e o Paquistão este ano.
Como o conflito recomeçou
Tudo começou em julho, quando o Irã enviou um avião para trazer de volta ao Iêmen uma delegação de houthis que havia viajado ao país persa para o funeral do líder supremo Ali Khamenei.
O governo iemenita reconhecido internacionalmente, adversário dos houthis, disse que atacou o Aeroporto de Sanaa – capital do país, controlada pelos aliados do Irã – porque considerou que a presença de um avião iraniano representava uma violação do espaço aéreo iemenita. Por sua vez, os houthis culparam a Arábia Saudita, que apoia o segundo grupo, pelo bombardeio.
Em resposta, os houthis anunciaram um bloqueio naval a navios sauditas na região do Mar Vermelho e iniciaram uma ofensiva relâmpago ao longo da costa do Iêmen, ao tomar territórios estratégicos na região do Estreito de Bab al-Mandeb.
Também atacaram instalações petrolíferas e oleodutos sauditas, o que levou Riade a responder com ataques aéreos. Por fim, houve a ofensiva houthi no principal aeroporto do país.
Pacto de Meca, recém-assinado, já está em xeque
Em agosto, o reino saudita assinou com o Paquistão e a Arábia Saudita um acordo para criar a Aliança da Defesa de Meca, que foi apelidada de Otan islâmica por ter um princípio semelhante ao do artigo 5 da aliança militar do Ocidente: um ataque a qualquer membro do grupo é considerado também um ataque aos outros integrantes.
O problema é que a resposta de Ancara e Islamabad tem sido reticente. Nesta terça-feira (13), o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, telefonou para o príncipe-herdeiro e primeiro-ministro saudita, Mohammed bin Salman, conhecido como MBS, e manifestou “o apoio total do seu país à Arábia Saudita e às suas medidas para salvaguardar a segurança e reforçar a estabilidade”, segundo informações da agência estatal saudita.
Porém, Erdogan não deu maiores detalhes sobre como pretende ajudar. No caso do Paquistão, o impasse é ainda maior, porque Islamabad tem atuado como mediadora nas conversas entre Estados Unidos e Irã – lutar contra um aliado de Teerã poderia representar uma saia-justa para os paquistaneses, já que poderiam deixar de ser vistos como imparciais nas negociações.
“A Arábia Saudita sempre foi uma aliada resoluta do Paquistão e sua financiadora. Os sauditas investiram muito dinheiro no Paquistão. É muito comum haver ações e serviços militares de paquistaneses para os sauditas, em missões, tudo feito de maneira oficial, sem qualquer relação com mercenarismo”, afirmou Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme).
O analista afirmou que, pelo lado saudita, o grande problema é saber como o chamado Pacto de Meca vai se comportar diante da ameaça houthi.
“Entre o Irã e a Arábia Saudita, o Paquistão sempre escolherá a Arábia Saudita pelos laços históricos, econômicos e financeiros”, disse Moita. “Por outro lado, é interessante para a atual liderança paquistanesa ter essa interlocução [EUA e Irã] para criar um trunfo político interno, dado o problema recente que tiveram com a Índia [um conflito pontual em 2025 reacendeu hostilidades que vêm de décadas]. Eles precisam de uma agenda positiva para mostrar ao público interno que conseguiram mediar essa crise entre Estados Unidos e Irã”, acrescentou.
“Para o Paquistão, sem dúvida é uma posição complicada. A gente vê que esse Pacto de Defesa de Meca não tem se traduzido em ações efetivas. Os turcos dizem que vão defender a Arábia Saudita, mas não vão atacar os houthis. Os paquistaneses falam em defender os sauditas, mas também não falam em fazer uma ofensiva, algo nesse sentido. Então, fica uma aliança mambembe. Se isso não funcionar, veremos claramente uma corrida da Arábia Saudita aos Estados Unidos para que sejam feitos ataques contra os houthis”, disse Moita.
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Arábia Saudita recusou ajuda de Israel contra os houthis
O jornal israelense Haaretz informou na segunda-feira (12) que o governo de Israel ofereceu ajuda no conflito com os houthis, mas MBS recusou por medo da rejeição da população saudita a esse apoio – os dois países não mantêm relações diplomáticas.
A oferta israelense foi entendida como uma forma de forçar Riade a aderir aos Acordos de Abraão, mediados pelos Estados Unidos e por meio dos quais Israel vem estabelecendo relações com países muçulmanos.
Analistas apontam que a Arábia Saudita precisa tomar uma decisão rapidamente, visto que os confrontos dos últimos três meses já demonstraram fragilidades que expuseram o reino diante da comunidade internacional.
“Os sauditas cometeram vários erros e sofreram fracassos”, disse Ahmed Nagi, analista sênior sobre Iêmen do think tank International Crisis Group, em entrevista à emissora americana CNN.
“As áreas que perderam geraram problemas de moral entre seus aliados e, agora, isso representa um grande desafio para os sauditas, uma vez que os houthis possuem armamento mais avançado, capaz de atingir várias cidades na Arábia Saudita”, afirmou ele.
Sandro Teixeira Moita disse que os houthis ainda podem causar muito mais estragos no lado saudita.
“O que a gente está vendo aqui claramente é o seguinte: os houthis têm uma agenda muito clara de punir a Arábia Saudita pelos ataques de julho”, destacou. “Eles [houthis] têm capacidade, habilidade, força, armamentos e acesso a meios. Mas o problema maior é a incompetência saudita no campo militar, que é algo impressionante. É impressionante que o principal aeroporto do país tenha sido atacado mais de uma vez, de maneira chocante, produzindo esse grande número de baixas.”
“A Arábia Saudita precisa dar uma virada nessa guerra ou chegar a um acordo com os houthis, uma vez que estes deram sinais claros de que cumprem acordos firmados. Não é um cenário fácil, dado o retrospecto saudita até aqui, e vai exigir uma coordenação muito maior da Arábia Saudita com seus aliados ou com esse recém-formado Pacto de Meca, que até o momento se mostrou ineficaz contra a ameaça houthi”, projetou.
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