
Em meio às articulações do centro político para as eleições de 2026, o novo líder do Republicanos na Câmara, o deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE), sinalizou que, no atual momento, o partido tende a se posicionar no campo da centro-direita em meio à disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).
Segundo o deputado, o cenário permanece em aberto e exige cautela antes de qualquer definição. “É difícil, neste momento, dizer que o partido caminhará automaticamente para um ou outro campo. Mas a tendência do partido, neste momento, é caminhar em uma candidatura de centro-direita”, afirmou.
Ainda de acordo com Coutinho, a saída do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da disputa presidencial explica a postura cautelosa do partido. Ele ressaltou que, sem uma candidatura majoritária, é natural que haja diferentes leituras internas e autonomia regional.
O deputado ainda citou que nomes como os governadores Ratinho Júnior (Paraná), Ronaldo Caiado (Goiás) e Eduardo Leite (Rio Grande do Sul) são opções para além de Lula e Flávio.
Na entrevista, o parlamentar também abordou o debate em torno do PL 152/2025, que regulamenta o trabalho em plataformas digitais e do qual é relator. Coutinho rejeitou a criação de vínculo empregatício para motoristas e entregadores de aplicativos e afirmou que a proposta deixa isso claro.
“O texto é muito claro ao definir que se trata de trabalhador de plataforma sem vínculo empregatício. Se for necessário ajustar a redação para deixar ainda mais explícito que não há vínculo, faremos esse ajuste”, afirmou. Para ele, a experiência internacional mostra que a imposição de vínculo trabalhista nesse setor “deu errado”.
Para o novo líder do Republicanos, o objetivo do projeto é garantir direitos mínimos sem inviabilizar o modelo de negócios das plataformas. “O trabalhador não quer ser celetista”, declarou, ao defender flexibilidade e autonomia como pontos centrais da regulamentação.
Coutinho também destacou que o diálogo com empresas, Congresso e governo segue aberto para reduzir resistências e evitar insegurança jurídica durante a tramitação da proposta.
Veja abaixo a entrevista:
Como foi o processo que levou o senhor a assumir a liderança do Republicanos na Câmara?
Augusto Coutinho: Eu já era vice-líder do partido e o Republicanos já vinha me delegando missões importantes. No ano passado, por exemplo, trabalhei no grupo de trabalho da reforma tributária, que reuniu os maiores partidos da Casa e teve um resultado positivo.
Ao longo desse período, sob a liderança do presidente da Câmara, Hugo Motta, e em diálogo com o presidente do partido, Marcos Pereira, ficou claro que eu estava integrado à dinâmica interna e disposto a colaborar mais. Tenho quatro mandatos como deputado federal e já exerci a liderança de outro partido, o que também contou nesse processo.
Quando houve a saída do então líder, meu nome foi apresentado pelo presidente do partido. Não houve necessidade sequer de reunião: foi feita uma lista assinada por todos os colegas da bancada, sem qualquer resistência, o que demonstrou a boa relação que construí com os deputados.
Como será sua relação com o governo e com a oposição?
Augusto Coutinho: O Republicanos hoje preside a Câmara dos Deputados, o que exige responsabilidade institucional. Precisamos manter diálogo tanto com o governo quanto com a oposição. O partido participa do governo, mas em diversas votações não acompanha integralmente o Planalto, justamente pelas divergências internas.
Há diferenças ideológicas claras com o PT, mas quando o tema é de interesse do país, especialmente na área econômica, o diálogo acontece sem dificuldade. O que não contribui é a politização excessiva de temas técnicos. O país precisa de soluções, não apenas de disputas retóricas.
O partido tem parlamentares governistas e oposicionistas. Pensando nas eleições de 2026, como conciliar esse antagonismo?
Augusto Coutinho: Essa diversidade interna não é uma particularidade do Republicanos; ela existe em praticamente todos os partidos de centro. Os extremos não convivem com isso. Você não vê o PT apoiando o PL, nem o PL apoiando o PT, especialmente em eleições majoritárias nacionais. Fora desses polos, todos os partidos lidam com diferenças internas.
O Brasil é um país extremamente diverso. A realidade do Nordeste é completamente diferente da do Sul ou de São Paulo. Para um partido sobreviver e crescer, ele precisa compreender essas diferenças e fazer concessões.
Em 2022, por exemplo, o Republicanos apoiou nacionalmente o então presidente Jair Bolsonaro, mas em Pernambuco o diretório estadual foi liberado para apoiar Lula. Na Bahia, o partido seguiu outro caminho. Isso acontece porque, quando não há candidatura presidencial própria, é natural que o partido dê autonomia às suas bases regionais.
Esse modelo deve se repetir em 2026. Enquanto não tivermos um candidato majoritário próprio, o partido continuará respeitando essas peculiaridades regionais, sempre buscando preservar sua identidade e viabilidade eleitoral.
No plano nacional, qual é a estratégia do partido para 2026? Há possibilidade de federação?
Augusto Coutinho: Essa discussão já foi feita internamente no ano passado, sob a liderança do presidente Marcos Pereira, que tem grande capacidade de ouvir e de dialogar. Chegamos à conclusão de que o Republicanos não deveria integrar uma federação partidária.
Houve uma proposta do MDB para formar uma federação, inclusive com o comando ficando com o Republicanos, mas a maioria do partido entendeu que não era o melhor caminho. Também optamos por não aderir à federação União Progressista.
A decisão foi clara: o Republicanos seguirá em voo solo, com mais autonomia e melhores condições de crescimento.
Já há alguma tendência para apoiar Lula ou Flávio Bolsonaro?
Augusto Coutinho: Se o Republicanos tivesse uma candidatura majoritária própria à Presidência da República, o cenário seria completamente diferente. Mas, enquanto isso não acontece, é natural que existam diferentes leituras dentro do partido.
O governador Tarcísio de Freitas já deixou claro que não será candidato e que cuidará de sua reeleição em São Paulo. Diante disso, surgem outros nomes no campo do centro e da centro-direita, como Ratinho Júnior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite.
É difícil, neste momento, dizer que o partido caminhará automaticamente para um ou outro campo [Lula ou Flávio]. Mas a tendência do partido, neste momento, é caminhar em uma candidatura de centro-direita.
No debate sobre o PL 152/2025, que regulamenta o trabalho em plataformas digitais, como o senhor avalia as preocupações de entidades empresariais de que o projeto possa aumentar custos trabalhistas e criar novas obrigações para as empresas?
Augusto Coutinho: O texto é muito claro ao definir que se trata de trabalhador de plataforma sem vínculo empregatício. Isso está expresso de forma objetiva no projeto. Se for necessário ajustar a redação para deixar ainda mais explícito que não há vínculo empregatício, faremos esse ajuste sem nenhuma dificuldade.
Essa discussão, para nós, já está superada. Onde se tentou impor vínculo empregatício no mundo, a experiência foi negativa. Onde se manteve o modelo sem vínculo, com regras claras, o sistema funcionou melhor. O trabalhador [de aplicativo] não quer ser celetista.
Tivemos reuniões com o presidente da Câmara, com o presidente da comissão e com representantes do setor produtivo justamente para esclarecer esse ponto. Não há intenção alguma de criar vínculo trabalhista. O objetivo é garantir direitos mínimos sem inviabilizar o modelo.
Esse receio das empresas está ligado à insegurança jurídica no país?
Augusto Coutinho: Eu entendo que esse receio não decorre apenas da insegurança jurídica, mas da vontade de algumas empresas de manter regras que elas próprias criaram. Empresa não pode legislar sozinha.
Não faz sentido dizer que o trabalhador é autônomo se, ao recusar uma corrida ou uma entrega, ele é penalizado pelo aplicativo. Isso não é autonomia. Autonomia verdadeira é poder escolher quando trabalhar, sem punições indiretas.
O projeto busca justamente equilibrar essa relação, deixando claro que a autonomia precisa ser real, e não apenas formal.
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