
A economia espacial tem uma faceta glamourosa e cara, com novas espaçonaves, sondas e telescópios testando os limites da tecnologia e expandindo a fronteira do conhecimento humano. Mas a maior parte dos negócios ocorre em outro nível, conhecido no setor como reach applications — o uso constante de dados e sinais enviados por satélites, para orientar trabalhos rotineiros em diferentes áreas. Lideram essa demanda os setores de transporte, varejo, comunicações, defesa e alimentos e bebidas. Os cinco vão representar mais de 60% do crescimento da economia espacial na próxima década, segundo um estudo do Fórum Econômico Mundial. A perspectiva é que o setor movimente US$ 1,8 trilhão até 2035, ante os US$ 630 bilhões registrados em 2023, com expansão de 9% ao ano, acima do crescimento do PIB global. “O espaço virou uma camada de infraestrutura da economia moderna”, diz o engenheiro espacial Lucas Fonseca, CEO da consultoria especializada Airvantis.
É nesse cenário que o Brasil tenta ampliar sua presença. O desenvolvimento do Microlançador Brasileiro (MLBR), foguete de pequeno porte conduzido por um consórcio de empresas com apoio da Agência Espacial Brasileira (AEB) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), marca um novo momento para o setor, 23 anos após a tragédia de Alcântara, que interrompeu o programa do Veículo Lançador de Satélites (VLS).
De acordo com Leila Fonseca, coordenadora de estudos estratégicos e novos negócios da AEB, o MLBR representa um passo concreto na transição do Programa Espacial Brasileiro para uma fase mais conectada à indústria nacional, à inovação, à formação de competências e à busca por autonomia no acesso ao espaço.

Atualmente, a iniciativa está em fase de integração e validação de subsistemas críticos. O consórcio reúne a Cenic, responsável por integração do projeto, propulsores e estrutura física do foguete; a Concert Space, com expertise em sistemas de navegação e controle; a ETSYS, responsável pela segurança de voo e sistemas elétricos; a Delsis, que atua no desenvolvimento da rede de telemetria; e a PlasmaHub, que cuida de controle de lançamentos e engenharia aeroespacial.
Para Ralph Correa, engenheiro da Cenic e gestor do programa, a cooperação amplia a flexibilidade, a inovação e a aptidão de enfrentar desafios técnicos. “Não existe hoje no Brasil uma empresa capaz de executar sozinha uma iniciativa dessa complexidade”, afirma.
Leila, da AEB, ressalta que capacidade tecnológica isolada não basta. É preciso combinar visão de longo prazo, políticas públicas consistentes, financiamento, infraestrutura, ambiente regulatório, formação de pessoas e uma indústria preparada para atender tanto às demandas nacionais quanto às oportunidades internacionais.
Mais do que um projeto tecnológico, o MLBR carrega um forte simbolismo histórico e estratégico. Na visão de Rafael Mordente, CEO da Concert Space, dá continuidade ao legado dos 21 profissionais que morreram na tragédia de Alcântara, em 2003. Ao mesmo tempo, incorpora os aprendizados daquele episódio e busca ampliar a independência e a soberania do Brasil no acesso ao espaço. “Dessa forma, o país poderá definir as órbitas nas quais seus satélites serão colocados para que privilegiem, principalmente, o território nacional sem precisar de permissão ou concordância de outro país”, afirma.
Ele explica que o Brasil tem potencial de negócios em pelo menos três frentes: monitoramento ambiental e agrícola; infraestrutura tecnológica para missões espaciais; e sistemas que transformem dados espaciais em inteligência para ramos distintos. Como exemplo, cita o ATTOSat, voltado ao acompanhamento da Amazônia, das queimadas, do desmatamento, de recursos naturais e de eventos extremos.
De acordo com Rodrigo Secioso, superintendente da área de cadeias agroindustriais e defesa da Finep, um lançador requer componentes de alta complexidade e, por isso, cria possibilidades para corporações que produzem materiais especiais, eletrônica e software embarcado, sensores e sistemas de telemetria e telecomunicações. “Com o domínio dessas ferramentas, as companhias podem entrar em frentes como aeronáutica, energia, óleo e gás e automação industrial”, explica.
A economia espacial brasileira ainda está em estágio inicial. Lucas Fonseca alerta que o setor frequentemente desperta expectativas que nem sempre correspondem ao estágio de maturidade do ecossistema. “O espaço mobiliza capital, talento e atenção pública de uma forma que poucas frentes conseguem. Em contrapartida, isso cria muito hype. O papel de quem trabalha com o tema é separar o que é ficção, o que é factível e o que já é mercado”, diz. E ressalta que essa análise deve ser feita com cuidado: nem toda ideia espacial é automaticamente um bom negócio e nem toda visão futurista já tem demanda concreta hoje.
O executivo aponta que o avanço mais concreto dos últimos anos no Brasil está no segmento downstream, principalmente na conexão de informações espaciais a setores já consolidados, incluindo agricultura, mineração, logística, energia e meio ambiente. “O desafio é transformar competência técnica em produtos competitivos e criar uma plataforma de internacionalização para que companhias brasileiras acessem mercados maiores e menos dependentes da demanda pública nacional”, diz.
No cenário global, a área entrou em uma fase de expansão acelerada, impulsionada por redução de custos de lançamento, aumento do número de satélites, entrada de capital privado e demanda por conectividade, observação da Terra, segurança e independência tecnológica. O espaço deixou de ser uma agenda restrita às grandes potências tradicionais. Hoje, países médios empreendem no setor como instrumento de desenvolvimento econômico, política industrial, segurança nacional e posicionamento internacional.
A Austrália aposta em nichos competitivos, como uso de dados espaciais, robótica e tecnologias voltadas à agricultura, mineração e meio ambiente, parcerias internacionais e aplicações comerciais. Já a Coreia do Sul mostra como a articulação entre política espacial e industrial pode fortalecer negócios, estimular startups e criar demanda pública para soluções criadas pela indústria local. Nesse grupo, a Índia é a grande estrela. Possui capacidade própria de lançamento, missões científicas relevantes, satélites, serviços e uma indústria espacial cada vez mais aberta à participação de startups, setor privado e investidores. É um dos mercados mais promissores do mundo nessa área.
Apesar dos caminhos diferentes, Mordente ressalta que todas trazem uma lição comum: política pública consistente, encomendas estratégicas e participação privada precisam andar juntas. “Isso mostra que não é necessário disputar todos os segmentos. É possível escolher áreas prioritárias, desenvolver competências locais e inserir empresas nacionais em cadeias globais de valor. Essa é uma lição importante para o Brasil”, completa Correa, da Cenic.
Outro ponto importante é discutir modelos regulatórios, fiscais e industriais mais adequados para o setor. Segundo Fonseca, da Airvantis, países que avançaram na economia espacial criaram mecanismos específicos para reduzir barreiras, atrair investimento, incentivar exportações, apoiar empresas de base tecnológica e conectar suas indústrias a cadeias globais. É hora de o Brasil escolher quais são os instrumentos necessários — e colocá-los em funcionamento.
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