
O Brasil é a sétima maior economia do mundo e ainda convive com um déficit de saneamento básico que afeta quase 35 milhões de pessoas sem acesso à água tratada e mais de 100 milhões sem coleta de esgoto adequada, segundo dados do Instituto Trata Brasil. Esses números têm uma dimensão humanitária evidente. Mas têm também uma dimensão econômica que raramente aparece nos debates sobre crescimento e produtividade. A falta de infraestrutura sanitária não é apenas um problema de saúde pública. É um freio estrutural sobre a capacidade produtiva de trabalhadores, empresas e municípios inteiros.
Diego Borges, engenheiro com atuação em obras de infraestrutura e saneamento, observa que o custo econômico do déficit hídrico brasileiro é sistematicamente subestimado nas análises macroeconômicas, justamente porque seus efeitos se distribuem de forma difusa por setores que parecem não ter relação direta com canos e estações de tratamento.
Saúde, absenteísmo e perda de produtividade
A cadeia de impacto econômico começa pela saúde. Doenças de veiculação hídrica, como diarreia, leptospirose e hepatite A, são diretamente relacionadas à ausência de saneamento adequado e respondem por um volume expressivo de internações hospitalares no país a cada ano. Cada internação representa dias de trabalho perdidos, custos para o sistema de saúde público e privado e redução da capacidade produtiva de trabalhadores que, em sua maioria, pertencem às camadas de menor renda e menor proteção social.
O impacto sobre o absenteísmo nas empresas localizadas em regiões com infraestrutura sanitária precária é mensurável, ainda que raramente medido. Diego Borges ressalta que municípios com baixos índices de cobertura de esgoto tratado apresentam sistematicamente indicadores piores de saúde da força de trabalho, o que se traduz em menor produtividade, maior rotatividade e custos operacionais mais elevados para empresas que operam nessas localidades. O saneamento, nesse sentido, é um insumo econômico invisível.
O custo para o sistema de saúde e as finanças públicas
Estudos do setor estimam que cada real investido em saneamento básico gera entre quatro e cinco reais em retorno econômico, principalmente pela redução de gastos hospitalares e pelo aumento da produtividade da população atendida. Esse multiplicador coloca o saneamento entre os investimentos públicos de maior retorno social e econômico disponíveis, superando em eficiência muitas outras formas de gasto público debatidas com muito mais frequência.
O problema é que esse retorno é difuso e de longo prazo, enquanto o custo da obra é concentrado e imediato. Essa assimetria temporal desincentiva gestores públicos com horizontes eleitorais curtos e dificulta a priorização do saneamento em orçamentos disputados. Diego Borges contextualiza que essa lógica perversa é um dos principais obstáculos estruturais para a universalização dos serviços, e que o novo marco regulatório, ao atrair capital privado com contratos de longo prazo, criou um mecanismo parcial para contorná-la.
Desenvolvimento regional e atração de investimentos
A presença ou ausência de infraestrutura de saneamento também influencia diretamente a capacidade de municípios e regiões de atrair investimentos produtivos. Indústrias que demandam grandes volumes de água tratada em seus processos, como alimentação, bebidas, têxtil e farmacêutica, tendem a evitar localidades sem garantia de abastecimento confiável. Da mesma forma, empreendimentos imobiliários, hoteleiros e de serviços têm no saneamento um critério básico de viabilidade.
Regiões que avançam na cobertura de saneamento não apenas melhoram indicadores de saúde. Elas se tornam mais atrativas para o investimento privado, o que gera empregos, amplia a base tributária municipal e cria um ciclo virtuoso de desenvolvimento. Para Diego Borges, essa dimensão econômica do saneamento é o argumento mais poderoso para convencer gestores públicos e investidores privados de que universalizar o acesso não é gasto. É investimento com retorno mensurável.
O que os números ainda não capturam
O déficit de saneamento básico no Brasil tem um custo econômico que vai além do que as estatísticas oficiais conseguem medir. Há perdas de produtividade que nunca aparecem nos dados de absenteísmo porque o trabalhador adoecido simplesmente deixa o mercado formal. Há investimentos que nunca chegaram a determinadas regiões porque a infraestrutura básica não estava lá para recebê-los. Há talentos que nunca se desenvolveram plenamente porque cresceram em ambientes insalubres.
Como destaca Diego Borges, o verdadeiro custo do déficit de saneamento para a economia brasileira é maior do que qualquer estimativa consegue capturar com precisão. O que os números disponíveis já são suficientes para demonstrar, no entanto, é que universalizar o acesso à água tratada e ao esgoto sanitário não é uma política social. É uma política econômica. E tratá-la como tal é o primeiro passo para que ela receba a prioridade que merece.
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