
A limitação de visitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, determinada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), reorganizou a dinâmica interna da direita e abriu espaço para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) assumir o protagonismo nas articulações políticas.
Com o pai temporariamente afastado do contato direto com aliados, o pré-candidato à Presidência passa a liderar a definição de candidaturas ao Senado e a condução da estratégia eleitoral do grupo para 2026.
A mudança de protagonismo ocorre em um momento decisivo para a montagem do tabuleiro eleitoral da direita. Com a proximidade das eleições, aliados avaliam que a definição de candidaturas ao Senado se tornou prioridade absoluta, diante do entendimento de que a Casa terá papel central na relação entre os Poderes nos próximos anos.
Nesse cenário, a ausência física de Jair Bolsonaro nas articulações diretas acelera a transferência de responsabilidades para Flávio Bolsonaro. Ao transferir o ex-presidente para a prisão domiciliar, o ministro do STF limitou o direito de visitas apenas aos filhos e aos advogados de defesa.
Integrantes do PL relatam que Flávio já vinha ganhando espaço nas decisões estratégicas, especialmente após o avanço de seu nome nas pesquisas eleitorais. Em um eventual segundo turno da eleição presidencial, o senador teria 45,2% das intenções de voto contra 44,1% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), segundo levantamento do instituto Paraná Pesquisas divulgado nesta segunda-feira (30).
Na avaliação do cientista político Magno Karl, o protagonismo do Senado na estratégia da direita ajuda a explicar por que a definição das candidaturas se tornou ainda mais central no atual cenário — agora sob maior influência de Flávio Bolsonaro.
“O Senado concentra poderes que o Congresso como um todo não tem. Para uma direita que diagnostica o problema brasileiro como excesso de poder judicial, controlar o Senado é a via institucional de influir sobre o perfil do Estado sem precisar da Presidência”, afirmou.
PL prioriza nomes de confiança de Bolsonaro e tenta isolar o Centrão
Com a limitação de contato imposta por Alexandre de Moraes, Flávio passou a atuar como principal elo entre o ex-presidente e lideranças partidárias, governadores e pré-candidatos ao Senado em diferentes estados. A estratégia dentro do PL é priorizar candidaturas consideradas “de confiança” e evitar concessões ao Centrão na disputa pelo Senado.
“Já temos muitos nomes escolhidos. Agora estamos analisando pesquisas, conversando com mais algumas lideranças, mas sempre com o aval dele [Jair Bolsonaro]”, explicou Flávio Bolsonaro.
A avaliação é de que a formação de uma bancada alinhada ideologicamente será determinante para avançar em pautas sensíveis, especialmente aquelas relacionadas ao papel do Judiciário e ao equilíbrio entre os Poderes. Mesmo com as restrições, aliados afirmam que Jair Bolsonaro continuará influenciando decisões por meio de interlocutores próximos, incluindo familiares e advogados.
Mensagens, orientações e alinhamentos estratégicos devem seguir sendo transmitidos de forma indireta, preservando sua influência sobre o grupo político, ainda que com menor intensidade no curto prazo. A expectativa dentro do PL é de que, ao assumir a linha de frente das articulações, Flávio Bolsonaro consolide sua liderança interna e fortaleça o posicionamento do grupo na disputa pelo Senado.
“Eu disse para ele que é fundamental manter o plano original de lançar apenas candidatos ao Senado da confiança dele. Não fazer concessões ao Centrão no Senado. No Senado tem que ser gente fiel a ele”, afirmou o deputado Sanderson, nome escolhido para disputar uma cadeira de senador pelo Rio Grande do Sul.
Escolhido para ser candidato ao Senado pelo Mato Grosso do Sul, o deputado Marcos Pollon (PL) destacou que o momento não deve ser tratado como vitória política, mas como um episódio que exige reflexão institucional. “O que está acontecendo no Brasil não é normal. É uma perseguição judicial contra um ex-presidente da República, que, mesmo após um atentado e com sequelas graves, segue sendo alvo de um cerco que nunca termina”, disse.
Discurso crítico ao Supremo ganha força no eleitorado
O avanço da estratégia da direita em torno do Senado também se apoia em uma mudança perceptível no humor do eleitorado. A crítica ao STF ganhou centralidade na disputa eleitoral após o escândalo do Banco Master, e a expectativa é de que influencie diretamente o posicionamento político de parte dos eleitores.
Levantamento da Genial/Quaest, divulgado em março, mostrou que 66% dos brasileiros consideram importante eleger candidatos ao Senado comprometidos com a análise de pedidos de impeachment de ministros do STF, enquanto 22% discordam.
O apoio ao tema não se restringe à direita: entre eleitores que se declaram lulistas, 54% defendem esse tipo de posicionamento, enquanto, entre os que se identificam com a esquerda não lulista, o índice é de 52%.
A pesquisa também indica que 72% dos brasileiros avaliam que o STF tem “poder demais”, e 59% consideram que a Corte atua como aliada do governo federal.
Dentro do PL, a leitura é de que esse sentimento deve ser explorado especialmente nas disputas ao Senado, visto como o principal canal institucional para responder a esse tipo de insatisfação. A Casa concentra competências como a sabatina de ministros e a análise de pedidos de impeachment.
Na avaliação do cientista político Elias Tavares, o protagonismo do Senado na estratégia da direita decorre de uma combinação de fatores institucionais e do próprio calendário eleitoral. Segundo ele, a renovação de dois terços das cadeiras em 2026 abre uma janela concreta para mudança na correlação de forças da Casa.
“O Senado concentra competências decisivas, como a sabatina e aprovação de autoridades, incluindo ministros do STF e do Banco Central, além da condução de processos de impeachment. Isso eleva naturalmente seu peso político em um momento de tensão entre os Poderes”, afirmou.
Tavares destaca que, no caso de ministros do Supremo, o rito está previsto na Lei nº 1.079/1950 e depende exclusivamente do Senado, o que reforça o interesse de setores políticos em ampliar sua presença na Casa. Para ele, esse desenho institucional explica por que a disputa pelas vagas se tornou estratégica no cenário atual.
Para o analista, uma eventual maioria no Senado teria capacidade relevante de influência sobre o STF, ainda que não implique necessariamente confronto imediato. “Mais do que um embate direto, trata-se de capacidade de pressão, seja na condução de sabatinas, nas indicações ou no tensionamento institucional”, afirmou.
Metodologia de pesquisas citadas na reportagem
O Paraná Pesquisas entrevistou 2.080 eleitores, entre os dias 25 e 28 de março, por meio de entrevistas presenciais. A margem de erro do levantamento é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com intervalo de confiança de 95%. A pesquisa está registrada no TSE sob o protocolo BR-00873/2026.
O levantamento da Genial Quaest foi realizado entre os dias 6 e 9 de março de 2026, com 2.004 entrevistas presenciais em todo o país. A pesquisa tem margem de erro de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e nível de confiança de 95%. O estudo está registrado no TSE sob o código BR-05809/2026.
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