
A derrubada do ditador Nicolás Maduro pelos EUA, em uma operação histórica no último dia 3, coloca em xeque alianças de longa data feitas com China e Rússia, ditaduras que encontraram em Caracas um refúgio para sua agenda externa na América Latina.
Um enviado de Pequim chegou a se reunir com o líder chavista capturado horas antes do ataque surpresa americano na Venezuela. O regime de Xi Jinping estava há meses tentando conter os ânimos do presidente Donald Trump para ajudar o ditador aliado em apuros, que rejeitou qualquer caminho que resultasse em sua renúncia, apostando na força e apoio de seus parceiros globais. No entanto, isso não se materializou.
A queda de Maduro é um duro golpe principalmente para a influência da China na região, que tinha no país sua principal fonte de fornecimento de petróleo – cerca de 80% das exportações totais do recurso iam para o gigante asiático, apesar de Caracas responder a apenas 1% do comércio global da matéria-prima.
De acordo com dados do Oil & Gas Journal, a Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em mais de 300 bilhões de barris, em que Trump já sinalizou estar interessado em investir para recuperar a infraestrutura energética atualmente sucateada.
No mesmo sentido, a Rússia reagiu ao ataque americano em tom condenatório, ao observar mais um parceiro de longa data ser derrubado. Maduro repetidamente ameaçou Washington nos últimos meses dizendo que estaria preparado para retaliar ataques com equipamentos militares russos, o que se mostrou posteriormente uma grande falácia do ditador.
Teste de influência
Fato é que os radares chineses, a inteligência de Cuba ou sequer os mísseis russos foram capazes de evitar a remoção de Maduro de sua zona supostamente segura.
Além de abrir caminho para uma possível transição democrática na Venezuela, que vive uma grave crise humanitária e econômica devido aos anos sob o comando de uma ditadura sanguinária, a operação dos EUA que resultou na queda de Maduro também representa um teste para a crescente influência desses regimes na América Latina.
Igor Lucena, economista e doutor em Relações Internacionais, pontua que a Venezuela é tida como uma aliada de Rússia e China por diversos fatores, entre eles a proximidade com os EUA, a afinidade ideológica, a possibilidade de inserção de bases para treinar agentes e para espionagem.
“Existia um componente geopolítico extremamente forte naquela região. China e Rússia também perdem petróleo barato. Para Pequim, principalmente, esse mercado era muito interessante devido à necessidade de compra e consumo. Para Moscou, nem tanto, a relação envolvia mais a venda de equipamentos militares para defesa da Venezuela, e o ponto alto é realmente a espionagem”, avaliou o analista político.
Apesar de serem considerados parceiros ideológicos e comerciais da Venezuela, há um limite claro de reação desses regimes aliados em relação a ações dos EUA. Anne Dias, comentarista política da Gazeta do Povo, afirma que “Putin tende a escolher entre defender Maduro abertamente ou adotar um silêncio estratégico para evitar que os EUA ampliem sua pressão onde a Rússia mais perde [a guerra com a Ucrânia]. A China, fiel ao seu pragmatismo autoritário, tende a seguir o mesmo caminho”.
Rachadura no eixo socialista na América Latina
Para Dias, a derrubada de Maduro, mesmo com a manutenção do regime chavista no comando, enfraquece principalmente a influência de China e Rússia nos setores energético e político da América Latina. Nesse mesmo sentido, observa-se uma mudança no rumo político regional com as últimas eleições realizadas em países próximos à Venezuela.
“A Venezuela é um país a menos alinhado ao eixo autoritário na América Latina, num momento em que a região passa por eleições que vêm levando ao poder lideranças abertamente contrárias a esse modelo, como vimos na Argentina, Chile, Bolívia e Paraguai. A queda de Maduro não é um detalhe, é mais uma rachadura concreta no eixo socialista que tenta se sustentar na América Latina”, afirmou Dias.
Jogo de interesses
Analistas consultados pelo The New York Times apontam que, embora tenham desempenhado um papel importante no apoio a Maduro e seu mentor e antecessor, Hugo Chávez, China e Rússia sempre avaliaram o custo-benefício de se aliar à Venezuela em tempos de crise.
Por décadas, os chineses apoiaram Caracas por meio de empréstimos na casa das dezenas de bilhões de dólares que mantiveram os regimes de Chávez e de Maduro, depois que os credores ocidentais praticamente deixaram de trabalhar com a Venezuela.
O empresariado envolvido com o mercado de petróleo russo também desempenhou um papel vital na manutenção do fluxo da principal exportação da Venezuela desde que Trump impôs sanções econômicas ao país em seu primeiro mandato, em 2019.
Segundo o Times, com o passar do tempo, o declínio econômico da Venezuela indicou às ditaduras aliadas que o valor estratégico do país sul-americano estava caindo drasticamente, visto que o regime Maduro passou a ser tido como um aliado de alto risco econômico na região, que acumulava muitos empréstimos e tinha dificuldade de cumprir os acordos devido à perda de controle da crise interna.
Ligado a isso, as duas potências que disputam zonas de poder com os EUA estão imersas em seus próprios desafios – a China enfrenta um declínio de sua economia e atritos comerciais com Washington, enquanto a Rússia despende energia e gastos altíssimos com a longa invasão na Ucrânia.
De acordo com a agência de notícias Reuters, a queda de Maduro foi duramente criticada por alguns nacionalistas russos, que compararam o poderio americano com o fracasso russo em quase quatro anos de guerra na Ucrânia.
Por outro lado, alguns analistas veem que Moscou pode se beneficiar da nova “Doutrina Monroe” proposta por Trump, devido ao potencial de criação de novas esferas de influência no mundo. A Reuters lembrou que, desde o fim da Guerra Fria, Putin tem buscado estabelecer uma esfera de influência russa nas antigas repúblicas soviéticas da Ásia Central, do Cáucaso e da Ucrânia, numa iniciativa que encontra oposição de Washington.
Por sua vez, Trump antecipou em dezembro uma nova agenda externa focada em aumentar sua influência na América Latina, informalmente chamada de seu “quintal de casa”, e já obteve sucesso em sua primeira missão.
Após a operação bem-sucedida na Venezuela, o presidente americano sugeriu que poderia expandir essa ações militares na região. Um dos países visados por ele é a Colômbia, cujo líder, o esquerdista Gustavo Petro, tem se envolvido em atritos crescentes com o republicano e é apontado como um “parceiro” do narcotráfico, assim como o ex-ditador Nicolás Maduro.
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