
A intensificação e a maior frequência dos eventos climáticos extremos vêm impondo uma nova lógica ao planejamento do setor elétrico brasileiro, especialmente no segmento de distribuição. Para responder a esse cenário, as distribuidoras de energia mais que dobraram o volume médio anual de investimentos, que passou de cerca de R$ 20 bilhões para um patamar superior a R$ 45 bilhões por ano, com foco na modernização e no aumento da resiliência das redes. A aplicação de recursos prevista para a janela entre 2025 e 2029 deve ultrapassar R$ 235 bilhões.
Segundo o presidente da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee), Marcos Madureira, os eventos extremos deixaram de ser pontuais e passaram a compor um novo padrão, exigindo uma reorganização estrutural da atuação das distribuidoras. “Essa nova realidade tem levado as empresas a intensificar a revisão de processos, ampliar o reforço de equipes e acelerar investimentos de longo prazo”, afirmou.
Na prática, os investimentos se concentram no fortalecimento das redes, na digitalização e na automação dos sistemas, além da ampliação da capacidade operacional para atuação em períodos críticos. Tecnologias como sensores inteligentes, sistemas de controle à distância e análise avançada de dados permitem identificar falhas com mais precisão, agilizar a recomposição do serviço e reduzir o tempo de interrupção para o cliente. Para Madureira, a automação “tem sido determinante para ampliar a capacidade de resposta, especialmente em eventos severos”.
Além dos investimentos realizados individualmente pelas concessionárias, a atuação da Abradee tem contribuído de forma significativa para elevar o patamar de resiliência do segmento. A associação atua no alinhamento de protocolos e na troca de boas práticas, e fortalece mecanismos de apoio entre distribuidoras em situações críticas. “Quando o impacto climático se torna mais intenso, a cooperação passa a ser parte da solução”, diz Madureira.
O avanço dos investimentos em resiliência também reflete uma mudança mais ampla na forma como o setor elétrico brasileiro vem incorporando a sustentabilidade em sua estratégia de longo prazo. Em um país com matriz majoritariamente renovável, o desafio deixa de ser apenas ampliar a geração limpa e passa a incluir a capacidade de garantir que essa energia chegue de forma segura, contínua e com sinais de preços adequados aos consumidores, mesmo em condições climáticas adversas.
Para Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), a adaptação da infraestrutura elétrica é um dos principais ativos estratégicos do país na agenda de desenvolvimento sustentável. “O Brasil reúne atributos únicos, como uma matriz limpa, capilaridade e infraestrutura consolidada. Isso coloca o setor elétrico no centro da agenda climática e da competitividade nacional”, afirma. Segundo ela, adaptação e mitigação precisam caminhar juntas para transformar compromissos ambientais em resultados concretos para a sociedade.
Nesse contexto, dentro do Programa de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), a Abradee coordena o projeto “Melhores Práticas para o Segmento de Distribuição de Energia Elétrica em Face aos Eventos Climáticos Extremos”, com liderança técnica da EY-Parthenon e participação de todas as distribuidoras de energia do país. A iniciativa prevê a formulação de propostas técnicas e regulatórias voltadas ao fortalecimento da resiliência das redes, em consonância com as melhores práticas internacionais.
Dentro do projeto, as distribuidoras realizaram viagens ao Japão e aos Estados Unidos em 2025 para buscar ainda mais exemplos de boas práticas desses países que usam tecnologia e automação para tornar suas redes mais resilientes. “São experiências que mostram como é possível reduzir o tempo de interrupção e recuperar o serviço com mais rapidez mesmo em cenários climáticos severos”, afirmou o sócio de Governo & Infraestrutura da EY-Parthenon, Alexandre Vidal.
Para o consumidor, muitos desses investimentos só se tornam visíveis durante episódios extremos, quando a rapidez na recomposição do serviço faz a diferença. Por isso, as distribuidoras destacam que a preparação é permanente, e não sazonal. “O esforço é contínuo, e a população precisa saber que há técnica e responsabilidade por trás de cada investimento. Diante de eventos cada vez mais severos, o setor vem ampliando sua capacidade de resposta e de adaptação”, afirma Madureira.
O papel da infraestrutura
Essa leitura sobre a necessidade de adaptação estrutural das redes também está refletida em estudos setoriais que analisam o papel do setor elétrico brasileiro na agenda climática e no crescimento econômico de longo prazo. Levantamento conduzido pelo Cebds, com apoio técnico da consultoria PSR, indica que o Brasil tem condições de preservar cerca de 90% de renovabilidade em sua matriz elétrica até 2050, ao mesmo tempo em que a eletrificação da indústria e do transporte pode reduzir significativamente as emissões nacionais. Segundo o estudo, esse potencial está diretamente associado à existência de uma infraestrutura elétrica robusta, confiável e capaz de operar sob condições climáticas cada vez mais adversas.
Coalizão do Setor Elétrico: destaques do estudo da PSR
- 90% da matriz elétrica é renovável, respondendo por menos de 2% das emissões do país (média global: 30%);
- Rede interligada e acesso para 99% da população sustentam a competitividade das fontes limpas;
- Eletrificação da indústria e do transporte pode reduzir até 18% das emissões líquidas nacionais;
- Com horizonte 2050, o estudo mostra que é possível manter 90% de renovabilidade e contribuir com até 176 milhões de tCO2 ao ano para a descarbonização do Brasil;
- Preservar os 90% é fundamental: abaixo disso, as emissões sobem; acima desse patamar, é possível reduzir ainda mais as emissões de forma eficiente.
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