
Há um cenário benigno para a inflação, ainda que ele possa não ser suficiente para que o Comitê de Política Monetária do Banco Central comece a reduzir os juros na próxima semana. A ata da reunião de dezembro deixou em aberto essa possibilidade, embora ela não seja a maior aposta dos investidores, que acreditam que a taxa Selic começará a cair apenas em março. Uma série de indicadores continuou a evoluir favoravelmente desde o último encontro do Copom. Não há nada que indique que o processo descrito de desinflação gradual foi interrompido. O contexto segue o mesmo, cercado de muitas incertezas, em particular no cenário externo.
O nível de atividade econômica apresenta desaceleração. Ela é mais clara na indústria de transformação, que apresentou estabilidade em novembro (0% com ajuste sazonal), após crescer apenas 0,1% em outubro. A perda de ritmo, segundo dados do Ipea, é mais visível nos bens de consumo duráveis (-2,5%), cujo consumo depende em grande parte da disponibilidade de crédito e dos juros, mas também se revela nos bens intermediários (-0,6%), que são insumos da produção.
Em novembro, a indústria de transformação se via às voltas com estoques excessivos (Ipea), um dos motivos para a redução do nível de capacidade utilizada a 79,7%, próximo da média histórica.
O excesso de estoques e importações favorecidas por um real valorizado diante do dólar provocaram até novembro significativa deflação nos índices de preços ao produtor. Dados do IBGE mostram que, no índice geral, em 2025 até novembro, esses preços haviam caído 4,66%, com distintas variações. A mais significativa delas, por seus efeitos na inflação, foi o recuo de 8,42% nos alimentos, na comparação com novembro de 2024. Por categoria, os preços dos insumos (intermediários) declinaram 7,6% e os bens de consumo, 1,3%.
Se o clima não pregar nenhuma peça, uma safra agrícola recorde deve exercer pressão suavemente baixista ou estabilizadora nos preços dos alimentos. O índice de commodities do BC (IC-Br) mostrou queda de 15,2% nos preços agrícolas em reais em 2025 e de 5,2% nos preços em dólar. As previsões mais divulgadas não mostram um horizonte de elevação dos preços do petróleo, que caíram mesmo após a captura do presidente da Venezuela Nicolás Maduro pelo governo de Donald Trump e os tumultos no Irã. Em 2025, as commodities energéticas recuaram 7,17% em dólar.
Os preços dos combustíveis são um componente de peso na inflação, e nos que compõem a categoria dos preços administrados. Os analistas esperam uma menor pressão desses preços neste ano, assim como o Banco Central, que projetou uma evolução de 3,2%, ante 5,2% em 2025. O cenário eleitoral, porém, nubla um pouco a perspectiva dos itens monitorados. De olho nas urnas, o presidente Jair Bolsonaro conteve seus preços, reduzindo impostos, e não é desprezível o risco de alguma contenção de tarifas por parte do governo Lula no período eleitoral, o que teria impacto nos índices de preços.
As expectativas continuam desancoradas, mas um pouco menos do que antes. Às vésperas da reunião de dezembro do Copom, a expectativa expressa no boletim Focus era de inflação de 4,4% em 2026. O boletim do dia 19 de janeiro reduziu a projeção a 4,02%. Sazonalmente, janeiro e fevereiro são meses de preços em alta. Mas o BC prevê que ao fim do primeiro trimestre do ano o IPCA em 12 meses se situe em 3,61% (Relatório de Política Monetária de dezembro).
Dois fatores de preocupação inflacionária persistem no horizonte. O mercado de trabalho continua aquecido, com aumento da renda e da massa salarial, que impactam na inflação de serviços, ainda ao redor de 6%, muito acima da inflação média, de 4,26%. Há indícios de que a criação de vagas formais apresenta tendência de desaceleração, enquanto que os ganhos reais de salários — 80% dos acordos celebrados em 2024 resultaram em reajustes superiores à inflação — não cresceram e começaram a recuar.
O índice de serviços do IBGE de novembro registrou queda de 0,1% ante outubro. Na prática, isso significa estabilidade, porque em outubro de 2025 o setor bateu o recorde de atividade, com um nível 20% superior ao do período pré-pandemia. Aqui também há evidências de que os segmentos de serviços mais sensíveis à renda começam a refluir, como comércio, lazer e alimentação fora do domicílio.
O estágio de desinflação estaria bem mais avançado diante de uma enorme taxa real de juros perto de 10%, a maior em quase duas décadas, mas isso não ocorre porque os estímulos fiscais e creditícios dos quais o governo não se cansa de lançar mão, amortecem os efeitos da política monetária. O Banco Central sinalizou que os juros devem cair, mas o ritmo dependerá, além da evolução dos dados macroeconômicos, das medidas que o governo Lula eventualmente execute para melhorar as chances de reeleição.
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