
O ano de 2025 foi marcado por consolidação e amadurecimento da inteligência artificial (IA), alcance de escala, confiabilidade e integração da tecnologia à vida das pessoas e ao dia a dia das companhias. A nova ferramenta também foi transformada em arma geopolítica e está no centro do temor de que uma nova bolha esteja sendo formada no mercado financeiro, dado o enorme volume de gastos sendo feitos por grandes empresas de tecnologia.
Outra ameaça é uma revisão das expectativas em relação à IA, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). Caso as projeções em relação aos ganhos de produtividade e de rentabilidade com a nova tecnologia não se concretizem, o FMI alerta que pode haver uma onda de correção nos mercados financeiros, que poderia se espalhar para empresas do setor de tecnologia e reduzir o PIB global em 0,4 ponto percentual neste ano.
Com adoção mandatória em praticamente todos os setores, a IA passou a orientar os investimentos. Segundo projeções da consultoria Gartner, os gastos totais com IA em 2025 chegaram a US$ 1,75 trilhão (R$ 9,39 trilhões pela cotação do Banco Central, ontem). Para 2026, a cifra deve saltar a US$ 2,52 trilhões (R$ 13,41 trilhões). O Gartner distribui os gastos em oito mercados – serviços, software, cibersegurança, modelos de IA, plataformas de desenvolvimento e de ciência de dados e infraestrutura.
A pressão por infraestrutura para sustentar a tecnologia que se viu ao longo de 2025 tende a aumentar neste ano, por mais disponibilidade de energia elétrica, água e minerais críticos, por exemplo, avalia o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de São Paulo (USP), Glauco Arbix, especializado em estudos da inteligência artificial.
Arbix observa que a penetração da tecnologia cresceu nas empresas em todo o mundo, inclusive no Brasil. Mas aquém do que era previsto, diz. A tão propagada inteligência artificial geral (IAG) – que poderá superar os humanos – não chegou. Houve limitação de infraestrutura e de capacidade científica para o desenvolvimento, o que empurrou a promessa de inovação para além de 2026.
A infraestrutura está sendo montada em diversas partes do mundo. Neste ano, poderão entrar em execução a construção de “data centers” para IA que tiveram US$ 750 bilhões comprometidos apenas com projetos para instalações, de acordo com a revista Barron’s.
A Meta Platforms (dona do Facebook, Instagram e WhatsApp), a Microsoft e a Alphabet (controladora do Google) pretendiam despender US$ 200 bilhões com IA. Mas, ao longo de 2025, sob pressão do presidente Donald Trump, que quer aumentar investimentos nos Estados Unidos, a Meta anunciou planos de direcionar US$ 600 bilhões a instalações em território americano.
As empresas brasileiras avançaram de forma consistente em certas aplicações”
— Rodrigo Scotti
Nessa conta entram os investimentos privados globais (capital para startups) – mínimo de US$ 252,3 bilhões, de acordo com o relatório AI Index 2024, da Universidade de Stanford; e corporativos diretos em IA (hardware, software e serviços) – cerca de US$ 200 bilhões, de acordo com o Goldman Sachs.
O Citigroup calcula que as receitas globais de IA de US$ 43 bilhões em 2025 atingirão US$ 975 bilhões até 2030, o que implica uma taxa de crescimento anual composta de 86%, de acordo com a Reuters.
“Enxergamos como tendência para 2026 um conjunto de projetos: agro 4.0, saúde digital, novos fármacos, novos materiais e também a transição energética se tornando uma realidade”, diz o diretor de operações da Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), Marcelo Prim. O executivo prevê inovações, em especial, nas indústrias automobilística e de óleo e gás.
Entre as novidades do ano passado, o mercado assistiu à evolução dos modelos de IA multimodais – capazes de compreender e gerar texto, imagem, vídeo, áudio e dados estruturados de forma integrada. A tecnologia avançou em diversos setores da economia, integrou robótica e trabalho humano, começou a acelerar a resolução de desafios de ciência da vida, com a descoberta de moléculas e fármacos.
“As empresas brasileiras avançaram de forma consistente, especialmente em aplicações para agronegócio, energia, financeiro, jurídico, mobilidade e cidades inteligentes”, diz o presidente-executivo da Associação Brasileira de Inteligência Artificial (Abria), Rodrigo Scotti. “Mas ainda há muito espaço para expansão e integração. O principal desafio ainda é a escala global, acesso a capital e infraestrutura computacional.”
Em relação a 2025, Scotti considera que o ano foi marcado pela transição definitiva da IA como ferramenta experimental para infraestrutura estratégica.
Já o gerente-geral do Centro de Excelência em Inteligência Artificial da Universidade Federal de Goiás (Ceia/UFG), Anderson Soares, destaca a relação da academia com a indústria e a tentativa de ‘produtização’ [transformar produtos e serviços em escala comercializável] da IA generativa. “Uma coisa é fazer perguntinhas ao ChatGPT, outra é construir um produto que dê um ganho.”
Segundo Soares, o Ceia atendeu a 184 empresas de todos os portes em 2025, frente a 137 no ano anterior. Do total, 95% faziam prospecção para a criação de produtos de IA generativa. O Ceia recebe suporte da Embrapii e do Sebrae.
Para a presidente do conselho consultivo da Abria, Maria Eva Mit Lazarin, 2026 tende a ser o ano em que a IA deixa de ser apenas “inteligente” para se tornar confiável, verificável e institucionalmente integrada. Em relação à consolidação de mercado, com dominância das “big techs”, ela diz não acreditar que haverá um afunilamento total do mercado. “O que ocorre é uma reorganização da cadeia de valor, inclusive com mais democracia para novas tecnologias e ideias entrantes.”
Para o professor Arbix, há três grandes blocos de tensão em torno da tecnologia: a política do presidente Trump; a aceleração da China na disputa geopolítica com os EUA; e a disseminação da IA e multiplicação de plataformas, principalmente relacionadas a “fake news”, desinformação e incentivo psicológico a crimes.
O presidente americano alterou o panorama da IA no mundo e tenta desarticular os esforços pela regulamentação do uso da tecnologia sob o argumento de que regras para segurança e proteção vão inibir a inovação. Por meio dessa estratégia, Trump tem agido para barrar os progressos da China, com impacto para todo o mundo. Em fevereiro de 2025, cerca de 60 países assinaram em Paris a Declaração sobre Inteligência Artificial Inclusiva e Sustentável. Os EUA e o Reino Unido ficaram de fora.
A pressão por mais energia elétrica, água e minerais críticos tende a aumentar”
— Glauco Arbix
“Trump conseguiu mexer com vários países. Mas o Reino Unido e a França começaram a voltar atrás. A lei de IA começou para valer, mas precisa ser flexibilizada. A consequência mais palpável é que a inteligência artificial se transformou em uma arma geopolítica em toda parte”, diz Arbix.
Esse volume de capital, combinado à valorização vertiginosa das “big techs” e de startups de IA, bem como a desvalorização das ações de outras empresas de tecnologia acenderam alertas em Wall Street. O temor é de que estoure uma bolha de IA, como ocorreu nos anos 2000 com as empresas pontocom. Com receita prevista de US$ 20 bilhões, a OpenAI prevê gastos de US$ 1,4 trilhão em infraestrutura de IA e “data centers” até 2033. Em 2025, alcançou valor de mercado estimado por investidores em US$ 500 bilhões.
Por outro lado, o Google investe em várias frentes de IA, incorporando a tecnologia em todas as suas aplicações, seja em dispositivos dos consumidores e em sistemas corporativos, ou em infraestrutura e no seu “chatbot” Gemini.
“Estamos levando a IA para mais pessoas e desenvolvedores do que qualquer outra empresa. Em julho, anunciamos que processávamos 980 trilhões de tokens mensais em todas as nossas plataformas [tokens são as unidades de texto processadas por modelos de IA]. Agora, processamos mais de 1,3 quatrilhão de tokens mensais, um crescimento de mais de 20 vezes em um ano”, disse o executivo-chefe (CEO) do Google, Sundar Pichai, ao falar dos resultados do terceiro trimestre.
A Nvidia, por sua vez, seguiu uma escalada no mercado de ações e seu valor ultrapassou US$ 4,5 trilhões. “Tenta imaginar, se a computação quântica der um salto, ela não vai usar os chips da Nvidia. Então, uma empresa dessa pode desabar de uma hora para outra porque não tem uma tecnologia nova que acaba se consolidando”, analisa Arbix.
No cenário global, o embate entre os EUA e a China deve seguir neste ano. Embora os americanos ainda liderem a corrida da IA, a China acelerou para conquistar o pódio. Os EUA ganharam mais tração com a nova versão do ChatGPT, da OpenAI; do Gemini, do Google; e do Claude, da Anthropic.
No segmento de chips, Trump se mobilizou para fortalecer a Nvidia e impôs restrições à venda de unidades de última geração aos chineses. “O desempenho extraordinariamente rápido da Nvidia deu um domínio enorme e respondeu ao desenvolvimento de GPUs [unidades de processamento gráfico], o que é um fator relevante”, diz o secretário de Ciência e Tecnologia para Transformação Digital do MCTI, Henrique de Oliveira Miguel.
Os chineses, contudo, reagiram energicamente e têm lutado para eliminar o gap tecnológico que se tornou o “calcanhar de Aquiles” da indústria local de semicondutores, um mercado com receita de US$ 793 bilhões no mundo, em 2025, segundo o Gartner. “Por conta do seu ainda pequeno atraso na área de chips e de software, a China não faz equipamentos ultra-avançados. Mas está caminhando rapidamente para se equiparar”, diz Arbix, ao destacar que o país é uma das grandes lideranças mundiais em drones e de robótica avançada.
Na área de “chatbots”, a China registrou crescimento acelerado de empresas como a DeepSeek, com seu chatbot de código aberto; o Alibaba e a sua última versão do Qwen; e o Baidu, com o Ernie Bot. Sob a proteção do presidente Xi Jinping, outras companhias se destacaram, como a Butterfly Effect, criadora do modelo Manus AI, e a gigante Zhipu AI, que em 2025 mudou sua marca para Zi.ai.
“O mais relevante no mundo foi a chegada da DeepSeek, que trouxe uma ferramenta LLM que seguiu uma rota alternativa aos modelos tradicionais, com bom desempenho e código aberto, o que causou grande impacto – pode ser usado por qualquer usuário, que pode customizar a aplicação”, diz Oliveira Miguel.
A disputa geopolítica respingou por quase todo o globo. Miguel lembra que vários países foram classificados como não confiáveis e houve impacto sobre empresas brasileiras. “O ano de 2025 foi difícil porque demorou muito a aprovação do orçamento [do Ministério].” Para 2026, o orçamento aprovado pelo Congresso Nacional para o MCTI é de R$ 15,3 bilhões, com queda de 31,3% sobre o ano anterior. Ainda assim, o secretário estima que cerca de 30% das ações previstas no Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (Pbia) já foram desenvolvidas ou estejam em desenvolvimento. A meta é ampliar para 50% em até um ano.
Já o presidente da Embrapii, Alvaro Prata, afirma que outro objetivo do Pbia é estabelecer uma rede de inteligência artificial para a indústria brasileira este ano. Isso deverá envolver 30 organizações com apoio da Embrapii. Prata estima que cerca de 750 projetos foram contratados por empresas e instituições em 2025, com investimento de R$ 1,3 bilhão.
Para países em desenvolvimento como o Brasil, tem sempre que lembrar que quem controla a inteligência artificial são poucos países, poucas empresas e poucas universidades”, nota Arbix
“Já surfamos a indústria 4.0. Estamos surfando a inteligência artificial, e o futuro da indústria passa por uma revolução da biotecnologia, da bioeconomia, novos materiais”, diz Prim, da Embrapii. “É um momento propício para começar a surfar novas ondas”.
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