
Por Ronaldo Cunha — BelfordRoxo24h
15 de setembro de 2026
O cerco apertou para Eduardo Paes?
Uso essa pergunta diante de fatos que hoje caminham paralelamente: um dossiê relacionado ao Projeto Partiu Rio foi entregue ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro, documentos envolvendo a Coplan 360 passaram a integrar o debate público e uma Ação de Investigação Judicial Eleitoral contra Eduardo Paes e Jane Reis continua tramitando no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro.
É importante deixar claro desde o início: a existência de uma investigação, documentos e uma AIJE em andamento não significa que as acusações estejam comprovadas nem que exista condenação contra os investigados.
A AIJE nº 0602520-36.2026.6.19.0000 foi apresentada pelo candidato a deputado estadual Leonardo José do Patrocínio Aragão dos Santos Lau. A ação reúne alegações de suposto abuso de poder econômico e político, captação ilícita de sufrágio e uso indevido dos meios de comunicação.
Minha participação nessa história começou por outro caminho.
As derrubadas das minhas redes foram o ponto de partida
Antes de procurar o Ministério Público, contas ligadas ao BelfordRoxo24h começaram a receber sucessivas denúncias relacionadas a supostas violações de direitos autorais.
Na primeira sequência identificada pelo canal, foram registradas mais de 40 denúncias. Depois vieram novos episódios atingindo outras contas do ecossistema digital.
Em determinado momento, até minha conta pessoal ficou indisponível.
Foi diante dessa sequência que comecei a preservar notificações, prints, endereços de e-mail, links e outros registros relacionados às derrubadas.
Algumas notificações apresentavam caracteres japoneses. Isso chamou minha atenção, mas não permite concluir que as denúncias tenham partido do Japão ou de qualquer outro país.
Para identificar tecnicamente a origem dessas ações seriam necessários dados das plataformas, registros de acesso, endereços IP e outras informações obtidas pelos meios legais.
Outro detalhe também me chamou atenção: ninguém apareceu pedindo dinheiro para devolver as contas.
Isso deixou uma pergunta que ainda considero sem resposta:
Se a finalidade não era receber dinheiro, por que essas contas estavam sendo derrubadas?
Foi depois disso que voltei ao Partiu Rio
Foi durante a tentativa de entender o que estava acontecendo com minhas redes que comecei a rever acontecimentos anteriores.
Voltei aos contratos, aos pagamentos, aos contatos profissionais e ao Projeto Partiu Rio, do qual participei em 2025 em uma relação apresentada como produção de conteúdo institucional.
Segundo o relato que posteriormente entreguei às autoridades, o contato inicial para minha participação no projeto foi feito por Eduardo da Costa Azevedo, conhecido por mim como “Barbudo”, a quem atribuí no dossiê uma função de articulação operacional naquela relação.
A reportagem que teve acesso ao dossiê registra que uma pessoa identificada como “Barbudo” teria realizado o primeiro contato e, posteriormente, encaminhado o participante à estrutura administrativa e financeira da Coplan 360.
Depois desse contato, a contratação passou a ser formalizada por meio da Coplan 360.
Contrato previa R$ 3.500 por sete publicações
Entre os documentos que preservei está uma Carta Acordo.
Segundo o material divulgado, o contrato previa pagamento de R$ 3.500 mensais pela produção de sete publicações no Instagram, seguindo diretrizes fornecidas mensalmente.
Na documentação, a Prefeitura do Rio de Janeiro aparece como cliente, o Partiu Rio como campanha e a Coplan 360 como contratante.
Também consta do dossiê um comprovante de Pix de R$ 3.500, recebido em 15 de dezembro de 2025. O e-mail relacionado ao comprovante identificava o pagamento como “PARTIU RIO – Produção OUTUBRO”.
Esses documentos demonstram uma relação comercial e um pagamento.
Eles não comprovam, isoladamente, a existência de qualquer ilícito eleitoral.
Foi justamente para esclarecer o restante dessa estrutura que decidi procurar as autoridades.
Meu relato sobre conteúdos favoráveis a Eduardo Paes
Outro ponto que apresentei no dossiê trata da finalidade dos conteúdos.
Segundo meu relato às autoridades, em determinado momento fui informado de que as publicações deveriam assumir uma linha favorável a Eduardo Paes.
Quando entendi que a finalidade prática poderia ultrapassar aquilo que havia compreendido inicialmente como comunicação institucional, decidi não continuar daquela forma.
A reportagem que teve acesso ao dossiê também registra essa alegação e ressalta uma limitação importante: as conversas relacionadas a essa orientação não foram preservadas. Portanto, essa parte permanece como meu relato e precisa ser confirmada ou afastada a partir de outros registros, documentos e depoimentos.
Faço questão de separar as coisas:
O contrato está documentado.
O pagamento está documentado.
Minha participação está documentada.
A orientação de natureza política integra meu relato e depende de apuração.
Não atribuo as derrubadas das redes a ninguém sem prova
Algum tempo depois vieram as denúncias de direitos autorais e as derrubadas das minhas redes.
Foi essa sequência que me fez revisitar toda essa relação.
Mas sequência de acontecimentos não é prova de autoria.
Não tenho prova de que Eduardo Paes, a Coplan ou qualquer outra pessoa mencionada nesta reportagem tenha sido responsável pelas derrubadas.
Não faço essa acusação.
O que afirmo é que as derrubadas foram o gatilho para que eu retomasse os documentos do Partiu Rio e procurasse as autoridades.
Se existe alguma ligação entre esses fatos, ela terá de ser demonstrada tecnicamente.
Em 14 de agosto, protocolei o dossiê no MPRJ
Depois de organizar contratos, comprovantes, e-mails e outros registros, procurei o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
Em 14 de agosto de 2026, apresentei uma notícia de fato relacionada ao Projeto Partiu Rio.
O material recebeu o protocolo 2026.00925234. A entrega ao MPRJ e os documentos sobre a contratação e o pagamento foram posteriormente noticiados.
Meu objetivo ao procurar o Ministério Público não foi declarar antecipadamente ninguém culpado.
Foi colocar os documentos à disposição de uma autoridade que possui instrumentos legais para buscar informações às quais eu, como jornalista, não tenho acesso.
As perguntas que meus documentos não conseguem responder
Ainda existem questões importantes:
Quem estava acima da Coplan na cadeia de contratação?
De onde saíram os recursos usados nos pagamentos?
Quem autorizava esses pagamentos?
Quantas páginas ou produtores foram contratados?
Quem preparava e distribuía as pautas?
Quais conteúdos foram efetivamente publicados?
Qual era a finalidade de cada contratação?
O próprio dossiê ressalva que os documentos apresentados não demonstram qual empresa ou agência, se alguma, estava acima da Coplan naquela cadeia.
Essas respostas dependem de contratos, notas fiscais, registros financeiros, documentos empresariais e outras provas.
Quatro dias depois, Leonardo entrou no TRE-RJ
Em 18 de agosto de 2026, quatro dias depois do protocolo que fiz no Ministério Público, Leonardo José do Patrocínio Aragão dos Santos Lau apresentou ao TRE-RJ a AIJE nº 0602520-36.2026.6.19.0000.
A ação foi ajuizada contra Eduardo Paes e Jane Reis.
Essa diferença precisa permanecer registrada:
Eu não protocolei a AIJE no TRE-RJ.
Leonardo não protocolou meu dossiê no MPRJ.
Eu entreguei meu material ao Ministério Público.
Leonardo, posteriormente, apresentou uma ação própria à Justiça Eleitoral.
O dossiê passou a aparecer no contexto da AIJE
Documentos relacionados ao chamado “Dossiê MPRJ — Projeto Partiu Rio” passaram posteriormente a aparecer no contexto da discussão eleitoral.
O BelfordRoxo24h já publicou reportagem específica sobre os pagamentos relacionados ao projeto e os documentos envolvendo a Coplan.
Existe, porém, uma ressalva fundamental:
Um documento integrar ou ser mencionado numa investigação não significa que seu conteúdo tenha sido considerado comprovado pela Justiça.
A conclusão depende das provas admitidas, do contraditório, das manifestações das partes e do julgamento.
TRE-RJ negou pedido urgente, mas a ação continuou
O TRE-RJ negou o pedido de tutela provisória de urgência apresentado na AIJE.
Segundo a decisão divulgada, os elementos disponíveis naquele estágio não justificavam as medidas imediatas pretendidas.
Os investigados foram citados para defesa e o processo continuou. Pedidos de informações direcionados à Prefeitura do Rio e à Meta ainda poderiam ser analisados posteriormente.
É importante interpretar isso corretamente.
A negativa de uma medida urgente não representa julgamento definitivo do mérito.
Da mesma forma, o fato de a AIJE continuar tramitando não significa que as acusações tenham sido consideradas verdadeiras.
Eu me coloquei à disposição para prestar esclarecimentos
Depois que soube da existência da AIJE, conversei com o Dr. Leonardo.
Informei que estava à disposição para prestar esclarecimentos à Justiça Eleitoral sobre aquilo que vivi diretamente.
Eu poderia explicar como ocorreu meu contato com o projeto, como fui encaminhado à Coplan, como o contrato foi apresentado, como recebi o pagamento, como funcionavam os conteúdos e quais documentos consegui preservar.
Documentos demonstram fatos objetivos.
Mas determinados contextos também podem ser explicados por quem participou diretamente dos acontecimentos.
Pedido de prova testemunhal foi indeferido
Posteriormente, Leonardo me informou sobre uma decisão relacionada à produção de prova.
O que está documentado publicamente é que o relator da AIJE, desembargador Fernando Cerqueira Chagas, rejeitou a produção de prova testemunhal e a juntada de documentos suplementares requeridas no processo.
Depois, ao analisar pedido de reconsideração, o relator manteve sua decisão. A controvérsia poderia seguir para apreciação do colegiado do TRE-RJ.
Existe, porém, uma ressalva: a decisão pública localizada não me identifica nominalmente como a testemunha atingida pelo indeferimento.
Por isso, não afirmo que o desembargador tenha analisado individualmente meu nome e decidido que eu não deveria ser ouvido.
O que posso afirmar é:
Eu me coloquei à disposição para prestar esclarecimentos e, posteriormente, a produção de prova testemunhal requerida no processo foi indeferida.
E a quebra de sigilo da Coplan?
Até esta atualização, não localizei informação pública de que o TRE-RJ tenha determinado quebra de sigilo bancário ou fiscal da Coplan nessa AIJE.
O levantamento publicado anteriormente pelo BelfordRoxo24h também registrou que não havia decisão pública identificada determinando essa medida.
Isso não impede que informações financeiras possam ser solicitadas futuramente caso a Justiça considere alguma medida necessária.
Mas, até que exista uma decisão específica, não é correto afirmar que houve quebra de sigilo da empresa.
Então, o “cerco apertou”?
A expressão usada no título se refere ao acúmulo de procedimentos, documentos e questionamentos públicos: um dossiê foi entregue ao Ministério Público, existe uma AIJE em tramitação no TRE-RJ e contratos e pagamentos relacionados ao Partiu Rio passaram a integrar o debate público.
Isso não equivale a uma conclusão sobre responsabilidade de Eduardo Paes ou de qualquer outro investigado.
A Justiça Eleitoral ainda precisa decidir o mérito da ação, enquanto os demais documentos e relatos dependem da análise dos órgãos competentes.
Duas frentes precisam continuar separadas
Hoje existem duas linhas distintas.
A primeira envolve Partiu Rio, Coplan, contratos, pagamentos, MPRJ e a AIJE que tramita no TRE-RJ.
A segunda envolve as denúncias de direitos autorais e as derrubadas das redes do BelfordRoxo24h.
Foi a segunda que me levou a revisitar a primeira.
Até agora, não existe identificação pública conclusiva dos responsáveis pelas derrubadas.
Se as duas histórias possuem alguma conexão, isso precisará ser demonstrado por provas.
Minha disposição permanece
Continuo à disposição do Ministério Público, da Justiça Eleitoral e das demais autoridades competentes para esclarecer aquilo que presenciei diretamente e apresentar, pelos meios adequados, os documentos que possuo.
Meu objetivo não é substituir o trabalho das autoridades.
É permitir que ele avance baseado em documentos e provas.
Se as investigações demonstrarem que tudo ocorreu dentro da legalidade, essa conclusão deverá ser registrada.
Se forem comprovadas irregularidades, caberá aos órgãos competentes estabelecer responsabilidades.
Assista à entrevista completa
Na entrevista ao podcast No Ritmo Com Você, apresentei documentos e relatei os episódios envolvendo o Projeto Partiu Rio, as derrubadas das contas e os questionamentos levados às autoridades.
Entrevista completa:
Vou continuar acompanhando
Foi depois das derrubadas das minhas redes que comecei a juntar as peças.
Hoje existem contratos, pagamentos, protocolos, uma ação eleitoral e perguntas que ainda aguardam respostas.
Como jornalista e como pessoa que participou diretamente de parte dos acontecimentos, continuarei acompanhando os próximos movimentos do MPRJ e do TRE-RJ.
Meu compromisso nesta cobertura continuará sendo separar:
O que vivi.
O que está documentado.
O que permanece como alegação.
E aquilo que somente uma investigação oficial poderá esclarecer.
O espaço permanece aberto para manifestação de Eduardo Paes, Jane Reis, Coplan, Prefeitura do Rio, Meta e demais pessoas ou instituições citadas nesta reportagem.
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