
Dez anos após a fabricante japonesa de eletrônicos Sharp ter sido adquirida pela taiwanesa Foxconn, o ex-presidente da Sharp, Katsuhiko Machida, vê a empresa se afastando de seu antigo foco em produtos novos e exclusivos.
O “Nikkei Asia” conversou com Machida para marcar o aniversário, nesta quarta-feira, da aquisição da Sharp pela Foxconn. Ele liderou a Sharp entre 1998 e 2012 e supervisionou o crescimento da empresa por meio de seu negócio de telas de cristal líquido (LCD).
A seguir, trechos editados da entrevista:
Nikkei Asia: Quando o senhor teve contato pela primeira vez com a Foxconn?
Machida: Por volta de 2011, encontrei-me pela primeira vez em Hong Kong com Terry Gou, então presidente do conselho da Foxconn. Eu era o presidente do conselho da Sharp na época e propus terceirizar o negócio de painéis LCD de grande porte para a Foxconn.
Depois que os resultados financeiros da Sharp atingiram o pico no ano fiscal de 2007, a empresa foi atingida pela crise financeira global, pela valorização do iene, pelo Grande Terremoto do Leste do Japão [de março de 2011], entre outros fatores. Com tudo isso, estávamos tentando definir qual deveria ser o futuro do negócio de LCDs de grande porte.
Nikkei Asia: A Foxconn inicialmente adquiriu uma participação na operadora da fábrica de painéis LCD da Sharp em Sakai, em 2012. Eles queriam a tecnologia de LCD da Sharp?
Machida: Mais do que a tecnologia, tratava-se de obter componentes internamente. A Foxconn cuida da montagem, e obter peças-chave internamente facilita a competição em termos de custos. Acredito que eles se interessaram pela Sharp porque os painéis LCD são componentes fundamentais para televisores e computadores pessoais.
Nikkei Asia: A Foxconn comprou a Sharp em 2016. O senhor já havia deixado o cargo de presidente do conselho naquela época, mas houve alguma discussão prévia?
Machida: Perto do final de 2015, fomos repentinamente contatados por Gou e nos reunimos com ele no Hotel Okura Kyoto. Naquela época, tínhamos ouvido falar de uma proposta de reestruturação liderada pela Innovation Network Corp. do Japão para dividir a Sharp e integrar sua divisão de LCD à Japan Display. Com base nisso, Gou disse que forneceria os recursos para comprar a Sharp.
Nikkei Asia: Qual foi a sua reação à proposta de aquisição?
Machida: Eu disse que a Foxconn poderia comprar a divisão de LCD, mas provavelmente não conseguiria administrar a Sharp como um todo. A Foxconn atua na fabricação sob contrato há muitos anos, e eu achava que seria difícil para eles lidar com tudo, incluindo planejamento de produtos, design, desenvolvimento e vendas. Mas, vendo como as coisas terminaram, o resultado é muito diferente do que eu havia imaginado inicialmente.
Nikkei Asia: Como o senhor avaliaria, no final das contas, a aquisição pela Foxconn?
Machida: Acho que foi algo negativo. Criar produtos é difícil. É preciso entender os clientes, projetar e desenvolver novos produtos e vendê-los. Não se trata apenas de fabricação. Uma empresa focada em montagem como a Foxconn tem uma mentalidade diferente de uma empresa como a Sharp, focada no planejamento de produtos. A forma como elas concebem a inovação é diferente.
Nikkei Asia: Quando o senhor era presidente, concentrava-se em criar produtos singulares, exclusivos da Sharp. Qual é a sua visão sobre a Sharp atual?
Machida: Olhando para os últimos 10 anos, produtos desenvolvidos quando eu era presidente — como a tecnologia de íons Plasmacluster e os fornos a vapor Healsio — continuam sendo pilares da empresa. Não vejo muitos produtos novos e exclusivos surgindo agora.
Nikkei Asia: Onde o senhor espera ver crescimento futuro?
Machida: Há muito tempo deposito grandes esperanças nas células solares. Eu costumava imaginar a geração de energia no espaço para uso na Terra, mas recentemente surgiu a ideia de colocar os próprios data centers no espaço. “Pensei: ‘Aha!'”. Pode chegar o dia em que os dados ficarão na nuvem e os smartphones e PCs se tornarão apenas telas. Os tempos estão mudando rapidamente. É preciso pensar no que virá depois do smartphone.
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