
Um grupo de frades dominicanos, conhecidos como The Hillbilly Thomists, está chamando a atenção ao conciliar a vida religiosa com o sucesso na música bluegrass. Em turnê pelo sul dos Estados Unidos neste mês de agosto de 2026, os religiosos lançaram o álbum Strange Land, que mistura doutrina católica com ritmos tradicionais americanos, atraindo fãs que vão de jovens universitários ao Papa.
Quem são os Hillbilly Thomists e como eles conciliam a música com a batina?
Eles são frades da Ordem dos Pregadores, conhecidos como dominicanos, que decidiram usar o bluegrass — um gênero musical tradicional dos Estados Unidos que utiliza instrumentos como bandolim e banjo — para evangelizar. O grupo é formado por padres que possuem funções sérias e exigentes na Igreja, atuando como professores, reitores de universidades em Roma, capelães e pastores em tempo integral. Eles se autodenominam ‘cães de caça do Senhor’, uma referência ao trocadilho histórico com o nome da ordem (Domini canes). A música surge como uma extensão da fraternidade entre eles, mas sempre em segundo plano em relação aos deveres religiosos. O processo de gravação e pós-produção do novo disco, por exemplo, levou mais de um ano para ser concluído, justamente porque a prioridade dos membros é o atendimento às suas comunidades e o estudo teológico, deixando as turnês e ensaios restritos a breves períodos durante o verão.
O que o público pode esperar do novo álbum Strange Land?
O álbum Strange Land, ou ‘Terra Estranha’ em português, representa um salto na qualidade técnica e na sofisticação musical do conjunto. Diferente dos trabalhos anteriores, que eram gravados de forma mais caseira em casas de retiro, desta vez os frades contaram com a ajuda de engenheiros de som profissionais. O repertório é variado e criativo, incluindo desde hinos espirituais profundos até canções com títulos bem-humorados. O tema central do disco gira em torno da ideia de peregrinação, esperança e as lutas diárias da fé, tudo isso embalado por arranjos complexos e harmonias vocais precisas. As letras conseguem a façanha de unir a cultura caipira americana com a teologia de São Tomás de Aquino, o filósofo mais importante da ordem dominicana. É uma mistura de sons alegres de cordas com reflexões sobre o destino da alma e a vida intelectual cristã, criando uma experiência que é, ao mesmo tempo, entretenimento e oração.
Qual foi a reação do Vaticano e do Papa diante desse projeto musical?
A recepção no coração da Igreja Católica foi surpreendente e positiva. O Padre Thomas Joseph White, um dos fundadores da banda e reitor da Universidade Angelicum em Roma, revelou que os CDs do grupo chegaram às mãos do Papa. Durante um encontro oficial, o pontífice demonstrou interesse e fez questão de manter as gravações por perto, o que gerou brincadeiras entre os frades sobre a possibilidade de suas letras serem citadas em futuras encíclicas — os documentos mais importantes escritos por um Papa. Além do reconhecimento do Vaticano, a banda desenvolveu uma base de fãs muito fiel e orgânica. Não é raro ver jovens em shows usando camisetas e bonés personalizados criados por eles mesmos, com símbolos da banda, como cães carregando tochas. Esse fenômeno mostra que a música dos frades conseguiu romper a barreira dos conventos e se conectar com pessoas que buscam uma fé expressada de forma leve, mas com conteúdo intelectual sólido.
Por que a escolha pelo estilo bluegrass para falar de temas católicos?
A escolha do bluegrass é estratégica e culturalmente simbólica. Historicamente, essa música folclórica americana teve raízes muito ligadas ao protestantismo, e os frades viram a oportunidade de ‘catolizar’ o gênero. Ao assumir o bandolim e o banjo, eles infundem a doutrina tomista — baseada nos ensinamentos de São Tomás de Aquino — em uma estrutura musical que é amada pelo povo americano, especialmente no sul do país. Para o Padre Austin Litke, essa é uma forma de expressar o ‘gênio da criatividade’ que nasce da vida comunitária dos frades. A banda ocupa um lugar único no cenário musical: eles não são apenas artistas, mas pregadores que usam a arte para celebrar os 250 anos de independência dos Estados Unidos com uma perspectiva cristã. A turnê atual, que percorre estados como Geórgia e Alabama, termina simbolicamente no dia 8 de agosto, data em que a Igreja celebra a festa de São Domingos, o fundador da ordem, unindo celebração litúrgica e música popular no palco.
Conteúdo produzido a partir de informações apuradas pela equipe de repórteres da Gazeta do Povo. Para acessar a informação na íntegra e se aprofundar sobre o tema leia a reportagem abaixo.
- Frades dominicanos lançam álbum de bluegrass e chegam ao Vaticano
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