
O Congresso dos Estados Unidos está investigando neste momento uma série de organizações não governamentais (ONGs) de esquerda que podem estar atuando como instrumentos de influência do Partido Comunista da China (PCCh) em território americano.
A investigação está avançando neste momento em duas frentes paralelas: apurações abertas por comitês da Câmara dos Deputados sobre a chamada “Rede Singham” e um relatório formal do Departamento de Estado que aponta campanhas estruturadas de manipulação e interferência estrangeira no setor de informação dos EUA.
O que diz o relatório do Departamento de Estado
O documento, intitulado “Combate à Manipulação e Interferência Estrangeira na Informação”, foi enviado aos congressistas na semana passada. Trechos foram divulgados pelo jornal New York Post. Segundo o relatório, a China utiliza diplomatas, veículos de mídia estatal, influenciadores digitais e ONGs para difundir mensagens favoráveis ao regime e ampliar sua influência política no exterior e nos EUA.
O texto cita duas ONGs vinculadas à esquerda americana como possíveis integrantes desse ecossistema: Code Pink e People’s Forum. Em publicação no X, o Departamento de Estado afirmou que essas organizações teriam “promovido conteúdos e mobilizações alinhadas a posições defendidas por Pequim” nos EUA.
A subsecretária de Estado dos EUA para Diplomacia Pública, Sarah Rogers, reforçou essa tese em declaração ao New York Post.
“Organizações como a Code Pink e a People’s Forum denigrem os Estados Unidos, branqueiam a violência de regimes marxistas e protegem a China enquanto recebem recursos de uma rede de doadores com conexões ao Partido Comunista Chinês”, disse ela, acrescentando que “o Departamento de Estado buscará transparência completa para as redes de doadores e ONGs que fazem lobby para nossos adversários e procuram enfraquecer a determinação dos Estados Unidos.”
ONGs sob investigação defendem feminismo e marxismo
Fundada em 2002, a Code Pink se apresenta como uma organização feminista e anti-guerra. Ela é conhecida nos EUA por promover protestos contra intervenções militares americanas. Nos últimos anos, a Code Pink passou a defender a campanha “A China Não é Nossa Inimiga”, sob argumento de que Washington está adotando uma postura cada vez mais hostil contra Pequim. Segundo o relatório do Departamento de Estado enviado ao Congresso, a organização tem promovido nos últimos anos viagens de seus membros à China, realizado seminários virtuais com avaliações positivas sobre a revolução comunista e divulgado conteúdos favoráveis ao regime de Pequim.
Por sua vez, a People’s Forum, fundada em 2018 e com sede em Nova York, se apresenta como um “centro de formação política marxista e anti-imperialista”. A organização promove cursos, debates e diversas mobilizações progressistas nos EUA. De acordo com o relatório do Departamento de Estado, a People’s Forum estuda e vende a Revolução Chinesa como um modelo a ser seguido nos EUA e no mundo. A organização também promoveu nos últimos meses atos em defesa de regimes alinhados a Pequim, incluindo manifestações pró-Nicolás Maduro, após sua captura por forças americanas em janeiro.
O que é a “Rede Singham”
Paralelamente ao relatório do governo, comitês da Câmara investigam o que classificam como “Rede Singham”: um conjunto de organizações progressistas que, segundo os parlamentares, recebem recursos financeiros do empresário americano Neville Roy Singham, que mora atualmente em Xangai, na China.
De acordo com a imprensa americana, as investigações em curso no Congresso apontam Singham como um indivíduo que possui ligações próximas com o Partido Comunista Chinês, o que levanta suspeitas de que os recursos repassados por ele a essas entidades estariam, na prática, financiando uma rede de influência a serviço de Pequim em solo americano.
Segundo depoimentos prestados ao Comitê de Formas e Meios da Câmara dos EUA em audiência na semana passada, Singham teria investido ao menos US$ 100 milhões para estruturar essa rede, movimentando o dinheiro por meio de empresas de fachada e fundos de doações para ocultar sua origem.
De acordo com testemunhas ouvidas pelo comitê, o empresário frequentou treinamentos de propaganda do PCCh, compartilhou escritórios com veículos de mídia estatal chinesa em Xangai e utilizou brechas da legislação tributária americana para canalizar dezenas de milhões de dólares por meio de fundos administrados pelo banco Goldman Sachs.
Segundo os legisladores, tanto a Code Pink quanto o People’s Forum, citadas no relatório do Departamento de Estado, fazem parte dessa rede. Além delas, as investigações mencionam outras quatro organizações: o Party for Socialism and Liberation (PSL), partido marxista envolvido na organização de protestos; a ANSWER Coalition, coalizão ativista voltada a manifestações anti-guerra; a BreakThrough BT Media, responsável pelo site de notícias BreakThrough News; e o Tricontinental: Institute for Social Research, instituto marxista que publica análises críticas à política externa americana.
Conforme testemunhos ouvidos na audiência da semana passada, cada uma dessas entidades cumpre um papel específico dentro da rede de propaganda pró-Pequim. Por exemplo, o PSL e a ANSWER mobilizam manifestantes; o People’s Forum treina e coordena ativistas; e a BreakThrough News cuida da amplificação das mensagens na mídia.
Um ponto central da investigação é a possível aplicação da Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA) contra essas organizações. A legislação determina que indivíduos ou entidades que atuem politicamente em nome de governos estrangeiros se registrem no Departamento de Justiça dos Estados Unidos e tornem públicas suas fontes de financiamento e as atividades desempenhadas.
Caso fique comprovado que recursos enviados por Singham estavam vinculados, direta ou indiretamente, a interesses do Partido Comunista Chinês – e que essas entidades, apontadas nas investigações como beneficiárias desses repasses, tenham atuado em nome de um interesse estrangeiro sem o devido registro – elas poderão ser obrigadas a se inscrever formalmente nos termos da FARA. Em situações mais graves, a legislação prevê a aplicação de sanções civis e até responsabilização criminal contra aqueles que não seguem a lei.
Caso Singham foi revelado em 2023
A estrutura de financiamento associada a Singham já havia sido revelada em 2023 em reportagem do jornal The New York Times. De acordo com a matéria, depois de vender sua empresa Thoughtworks por US$ 785 milhões nos Estados Unidos, Singham direcionou parte de sua fortuna para financiar ONGs tanto nos EUA quanto no exterior. Ainda segundo o jornal, as entidades beneficiadas frequentemente combinavam pautas do ativismo progressista com conteúdos alinhados à propaganda chinesa.
Na ocasião, Singham negou qualquer vínculo político com Pequim: “Nego categoricamente qualquer sugestão de que eu seja membro de, trabalhe para, receba ordens de ou siga instruções de qualquer partido político ou governo.”
Propaganda vai além das ONGs
A disseminação de narrativas favoráveis ao regime chinês nos Estados Unidos não se restringe apenas às organizações investigadas pelo Congresso. Em janeiro deste ano, a revista Newsweek revelou, com base em um levantamento da empresa de análise digital Graphika, a existência de uma rede composta por 43 domínios e 37 subdomínios digitais que se passavam por grandes veículos de imprensa, como The New York Times, The Guardian e The Wall Street Journal.
As páginas reproduziam a identidade visual e trechos de conteúdos legítimos desses veículos para aparentar credibilidade, enquanto inseriam material editorial alinhado à mídia estatal chinesa e ao Partido Comunista da China (PCCh). A investigação identificou conexões técnicas entre esses sites e empresas chinesas previamente associadas a campanhas digitais de promoção do regime comunista. Parte do conteúdo teria sido amplificada pela operação conhecida como “spamouflage”, que utiliza perfis falsos e publicações coordenadas para impulsionar propaganda em plataformas ocidentais.
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