
Página no Instagram divulga manifestação em Bacaxá, compartilha pedido de voto no número 13 e publica afirmação contestada sobre a escala 6×1. Consultas realizadas na Biblioteca de Anúncios da Meta não localizaram registros pelo nome pesquisado.
Um perfil do Instagram identificado como Saquarema pela Democracia, que utiliza o nome de usuário @saquaremapelademocracia, está no centro de questionamentos sobre publicidade patrocinada, propaganda eleitoral e informações compartilhadas durante o segundo turno das eleições presidenciais de 2026.
A página, que apresentava aproximadamente 1.500 seguidores no momento dos registros, divulga uma manifestação anunciada para domingo, 11 de outubro, às 10h, na Praça de Bacaxá, em Saquarema, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro.
A análise das publicações revela três situações distintas: a utilização de publicidade paga para divulgar uma manifestação, o compartilhamento de propaganda eleitoral favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e uma publicação que atribui ao candidato Flávio Bolsonaro (PL) uma posição categórica sobre o fim da escala de trabalho 6×1.
O material foi documentado por meio de capturas de tela do Instagram e de consultas realizadas na Biblioteca de Anúncios da Meta, no dia 10 de outubro.

Perfil utiliza anúncio patrocinado para divulgar manifestação
Uma das imagens documentadas mostra uma publicação do perfil com a identificação “Patrocinado”, exibida pelo próprio Instagram.
O conteúdo apresenta manifestantes com uma faixa em defesa da democracia, enquanto outras publicações convidam moradores para o ato previsto na Praça de Bacaxá.
A identificação confirma que houve veiculação de publicidade paga associada ao perfil. Entretanto, o registro disponível não permite estabelecer quem financiou o anúncio ou quanto foi investido.
A legislação brasileira assegura a liberdade de manifestação e de expressão política. Contudo, anúncios sobre eleições, política e determinados temas sociais precisam observar regras específicas de transparência.
Segundo a Meta, anunciantes dessas categorias devem passar por um processo de autorização e identificar os responsáveis pelo pagamento da publicidade.


Anúncio não aparece nas pesquisas documentadas na Biblioteca da Meta
Para identificar o responsável pela publicidade, foram realizadas consultas à Biblioteca de Anúncios da Meta, plataforma que reúne informações sobre campanhas publicitárias exibidas no Facebook e no Instagram.
A primeira pesquisa utilizou o nome de usuário saquaremapelademocracia, com o Brasil selecionado como país e a opção “Todos os anúncios”.
O resultado apresentado foi:
“Nenhum anúncio corresponde aos seus critérios de pesquisa.”
A consulta foi repetida com o filtro “Temas, eleições ou política”, mantendo o mesmo nome de usuário.
Novamente, a plataforma informou que não havia anúncios correspondentes aos critérios pesquisados.
A divergência entre o anúncio visualizado no Instagram e a ausência de resultados nas buscas merece esclarecimento.
A Meta informa que anúncios relacionados a temas sociais, eleições e política ficam disponíveis em sua Biblioteca por sete anos, com informações sobre anunciantes, gastos e alcance.
Entretanto, a ausência de um anúncio em uma pesquisa pelo nome de usuário não comprova sua inexistência, ocultação ou classificação irregular.
Para determinar se houve falha de transparência, seria necessário localizar o identificador da publicidade, verificar sua classificação e consultar os dados do responsável pelo pagamento.
Perfil compartilha campanha eleitoral favorável a Lula
Além da manifestação, o perfil apresenta conteúdo com posicionamento eleitoral explícito.
Um carrossel de cinco imagens, exibido no Instagram, reúne críticas políticas e mensagens relacionadas à disputa presidencial.
Quatro dessas imagens apresentam um pedido direto de voto:
“DIA 25/10, VOTE 13!”
O número 13 identifica a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que disputa o segundo turno das eleições presidenciais contra Flávio Bolsonaro (PL).
As publicações fazem referências à pandemia de Covid-19, ao mapa da fome, à falta de oxigênio durante a crise sanitária e à chamada “fila do osso”.
Esses episódios históricos são utilizados nas peças como argumentos políticos para orientar a escolha eleitoral dos leitores.
O perfil também utiliza hashtags como #lula, #lula13, #democracia e #antifascista, reforçando o posicionamento favorável ao presidente.
A divulgação espontânea de preferências eleitorais por pessoas físicas é admitida pela legislação. O questionamento jurídico surge quando há contratação de publicidade eleitoral fora das condições autorizadas ou quando a propaganda é veiculada em perfis de pessoas jurídicas.





Publicação sobre Flávio Bolsonaro entra no debate sobre fake news
Entre os conteúdos compartilhados, uma arte chama a atenção pela afirmação relacionada ao candidato Flávio Bolsonaro.
Em destaque, a publicação afirma:
“FLÁVIO BOLSONARO É CONTRA O FIM DA ESCALA 6×1.”
O material acrescenta que o candidato defende uma jornada negociada entre patrão e empregado, com possibilidade de redução salarial.
A afirmação passou a ser questionada por apresentar como definitiva uma posição política que envolve propostas legislativas diferentes.
Em 9 de outubro de 2026, a CNN Brasil publicou declaração do senador e governador eleito de Minas Gerais, Cleitinho Azevedo (Republicanos), afirmando que Flávio Bolsonaro havia assumido o compromisso de votar favoravelmente ao fim da escala 6×1 caso a proposta fosse submetida ao plenário do Senado.
Por outro lado, Flávio Bolsonaro figura entre os signatários da PEC 12/2026, apresentada por Rogério Marinho (PL-RN), que estabelece a possibilidade de um regime de trabalho flexível com remuneração proporcional às horas trabalhadas.
A proposta alternativa é diferente da redução obrigatória da jornada com manutenção salarial defendida pelo governo Lula.
Portanto, existem divergências reais sobre o modelo de jornada e os efeitos econômicos das propostas. A declaração atribuída a Cleitinho também precisa ser considerada, já que contraria a interpretação de que Flávio rejeita qualquer iniciativa para acabar com a escala.
A imagem divulgada pelo perfil não apresenta essas diferenças e resume a posição do candidato a uma frase categórica.
Em abril de 2026, a agência de checagem Aos Fatos já havia classificado como enganosa outra publicação que afirmava que Flávio Bolsonaro teria prometido impedir o fim da escala 6×1 caso fosse eleito presidente.
A checagem, entretanto, tratava de uma alegação diferente da apresentada pelo perfil de Saquarema. Por isso, não é possível utilizar aquela conclusão como comprovação automática de falsidade da arte agora analisada.
O conteúdo compartilhado apresenta uma interpretação contestada sobre o candidato, mas a documentação disponível não demonstra que os responsáveis tenham publicado deliberadamente uma informação falsa.

O que diz a Justiça Eleitoral sobre propaganda paga?
A Resolução nº 23.610/2019 do Tribunal Superior Eleitoral, atualizada para as eleições de 2026, estabelece regras específicas para a publicidade eleitoral na internet.
O artigo 29 determina que o impulsionamento de propaganda eleitoral seja contratado exclusivamente pelos agentes autorizados, como candidatos, partidos, federações, coligações e seus representantes legais.
A legislação também proíbe impulsionamento de propaganda eleitoral negativa.
Outra restrição importante envolve a divulgação de propaganda eleitoral em perfis pertencentes a pessoas jurídicas, mesmo quando realizada gratuitamente.
O descumprimento das disposições do artigo 29 pode resultar em multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, ou valor equivalente ao dobro da quantia despendida, quando esse cálculo superar o limite máximo.
Para verificar se alguma dessas regras foi infringida, seria necessário identificar a natureza jurídica do perfil, a finalidade do anúncio pago e a pessoa responsável pela contratação.
Até o momento, não foi comprovado que o carrossel eleitoral favorável a Lula tenha sido impulsionado financeiramente.
Quem pagou pelo anúncio patrocinado?
A pergunta central da investigação permanece sem resposta: quem financiou a publicidade associada ao perfil Saquarema pela Democracia?
Os documentos disponíveis mostram que houve uma publicação patrocinada e que o perfil também compartilha conteúdo eleitoral favorável a Lula.
Contudo, não demonstram que a publicidade tenha financiado a propaganda eleitoral, nem permitem identificar ligação financeira entre o perfil e alguma candidatura ou partido.
A identificação do contratante, dos valores investidos e do anúncio completo poderá esclarecer essas questões.
Também é necessário distinguir a atividade política voluntária, assegurada pela legislação, da contratação irregular de propaganda eleitoral.
O espaço permanece aberto para que os administradores do perfil @saquaremapelademocracia apresentem esclarecimentos sobre a publicidade patrocinada, o financiamento das publicações e o conteúdo divulgado sobre Flávio Bolsonaro.
A reportagem poderá ser atualizada diante de novos documentos, esclarecimentos dos envolvidos ou manifestações oficiais da Meta e da Justiça Eleitoral.







